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Texas começa a extrair lítio de uma fonte inesperada: a água residual de poços de petróleo

A empresa Element3 colocou em operação, em Midland, uma instalação que produz carbonato de lítio a partir de águas residuais da indústria petrolífera. A capacidade declarada é de 3.000 toneladas por ano, mas ainda não há comprovação de produção efetiva nesse volume.

Texas começa a extrair lítio de uma fonte inesperada: a água residual de poços de petróleo

Os Estados Unidos incorporaram uma nova fonte de produção de lítio ao aproveitar águas residuais geradas pela indústria petrolífera. A empresa Element3 inaugurou, em 6 de fevereiro de 2026, uma planta em Midland, no Texas, capaz de transformar a água salina extraída junto com petróleo e gás em carbonato de lítio, composto usado na fabricação de baterias. O projeto oferece uma alternativa de abastecimento que aproveita a infraestrutura petrolífera existente, sem a necessidade de desenvolver uma mina convencional.

A instalação fica na Bacia do Permiano, uma das principais regiões produtoras de petróleo dos Estados Unidos, onde diariamente são extraídos enormes volumes de água de formações geológicas profundas. Durante décadas, esse líquido foi tratado principalmente como resíduo industrial, que precisa ser armazenado, tratado, reutilizado ou descartado.

No entanto, sua composição química também contém minerais que podem ser aproveitados. A Element3 desenvolveu um processo para separar o lítio presente nessas águas e transformá-lo em um produto comercial, usando uma tecnologia de extração direta relacionada a pesquisas do Laboratório Nacional de Oak Ridge, vinculado ao Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Uma nova fonte de lítio escondida nos campos petrolíferos

A extração de petróleo e gás não produz apenas hidrocarbonetos. Os poços também trazem à superfície grandes volumes de água subterrânea, conhecida tecnicamente como água produzida, que pode conter altas concentrações de sais e diferentes elementos minerais.

Na Bacia do Permiano, a dimensão desse fenômeno é significativa. A Element3 estima que as operações de petróleo e gás da região gerem cerca de 1 bilhão de galões dessas águas por dia — um volume que representa tanto um desafio de gestão industrial quanto uma possível fonte de recursos minerais.

O aproveitamento desse líquido difere da mineração tradicional de lítio. Em vez de extrair minério de rocha ou bombear novas salmouras para desenvolver um projeto independente, o sistema utiliza água que já está sendo movimentada por operações petrolíferas existentes.

A proposta é instalar equipamentos de recuperação conectados aos sistemas de gestão de água da indústria de energia. Assim, parte do fluxo pode ser processada para recuperar o lítio e, em seguida, voltar aos circuitos existentes, de acordo com as condições de tratamento e gestão aplicáveis.

Esse modelo também permite aproveitar tubulações, instalações industriais e serviços que já operam na região, reduzindo a necessidade de construir determinada infraestrutura do zero.

A tecnologia que permite recuperar mais de 90% do lítio

Um dos elementos centrais do projeto é a tecnologia de extração direta de lítio, conhecida pela sigla DLE, em inglês.

O processo utiliza materiais capazes de capturar seletivamente os íons de lítio presentes em águas de composição química complexa. Em seguida, o mineral recuperado é concentrado em uma solução de cloreto de lítio, que pode ser processada para produzir carbonato de lítio.

A separação seletiva é fundamental porque essas águas contêm diversas substâncias dissolvidas. O desafio tecnológico é recuperar o lítio sem arrastar quantidades excessivas de outros componentes que dificultem o refino posterior.

A tecnologia tem origem em pesquisas do Laboratório Nacional de Oak Ridge. Em 2024, a Element3 obteve licenças para usar um conjunto de tecnologias de recuperação de lítio desenvolvidas por cientistas da instituição.

Os avanços foram posteriormente reconhecidos pelo Critical Materials Innovation Hub, programa de pesquisa associado ao Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Em março de 2026, o Laboratório Ames divulgou dados sobre o desempenho de um sistema de extração em três etapas utilizado pela Element3. Os resultados indicaram recuperação superior a 90% do lítio contido na água processada, em menos de 30 minutos e com vazão superior a 25 galões por minuto.

Esses números correspondem ao desempenho técnico informado para o sistema avaliado. Eles não devem ser interpretados como uma taxa média de recuperação comprovada ao longo de um ano inteiro de operação industrial.

Planta tem capacidade para produzir 3.000 toneladas por ano

A instalação inaugurada em Midland tem capacidade declarada de 3.000 toneladas anuais de carbonato de lítio.

A ressalva é importante: essa quantidade se refere ao composto químico obtido após o processamento, e não a 3.000 toneladas de lítio metálico. Também não significa que a empresa tenha alcançado esse volume de produção em 2026.

Em fevereiro, a Element3 confirmou a obtenção de carbonato de lítio com equipamentos comerciais. Na ocasião, informou também que uma de suas instalações de extração ainda estava sendo montada em uma infraestrutura ligada à Double Eagle Energy Holdings, enquanto a empresa preparava seus primeiros embarques comerciais.

Em outubro, o Laboratório Nacional de Oak Ridge confirmou que a empresa havia instalado sua primeira planta comercial de extração direta na Bacia do Permiano, concluindo a transição da tecnologia da pesquisa em laboratório para a aplicação industrial.

O projeto também tem um histórico operacional anterior. Em fevereiro de 2025, a Element3 havia produzido carbonato de lítio de grau bateria usando água residual da Bacia de Midland em uma unidade de demonstração de segunda geração.

A diferença fundamental entre os dois acontecimentos está na escala: o desenvolvimento deixou de apenas demonstrar a recuperação do mineral e passou a instalar equipamentos voltados à produção comercial.

No entanto, ainda não há um balanço anual público e auditado que permita determinar quanto carbonato de lítio a instalação efetivamente produziu em 2026, qual foi sua utilização média da capacidade ou quais foram seus custos operacionais definitivos.

Estados Unidos buscam reduzir a dependência do lítio importado

O projeto ganha relevância em um contexto de forte dependência dos Estados Unidos do fornecimento internacional de minerais críticos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) informou, em seu relatório de 2026, que a dependência líquida de importações de lítio do país superou 50% em 2025. O órgão apontou Chile e Argentina como os principais fornecedores de lítio importado pelos Estados Unidos no período de 2021 a 2024, com participações de 54% e 43%, respectivamente.

As baterias responderam por aproximadamente 88% das aplicações mundiais do lítio em 2025, impulsionadas pelos setores automotivo e de dispositivos eletrônicos, além dos sistemas de armazenamento de energia.

Nesse cenário, a Element3 busca desenvolver a produção nacional a partir de um recurso que antes não era aproveitado comercialmente para obter lítio nessa escala.

Fundada em 2021 e sediada em Fort Worth, a companhia também planeja ampliar sua presença com novas instalações na Bacia do Permiano. A estratégia é expandir o modelo de extração para outras áreas com fluxos de água produzida e infraestrutura petrolífera disponível.

Esses projetos futuros, porém, não equivalem a plantas construídas nem a capacidades de produção garantidas. Sua execução dependerá de investimentos, acordos industriais e resultados técnicos e comerciais.

O desafio ambiental e econômico de transformar resíduos em minerais

O uso de águas produzidas na atividade petrolífera abre uma alternativa para recuperar minerais sem necessariamente recorrer a novas explorações convencionais. Isso, no entanto, não significa que o processo elimine todos os impactos ambientais associados.

A água produzida pode conter hidrocarbonetos residuais, sais e outras substâncias que exigem tratamento especializado. Extrair o lítio não torna automaticamente esse líquido próprio para consumo humano ou para lançamento no meio ambiente.

Também não é possível concluir que a tecnologia tenha menor impacto ambiental do que todas as alternativas convencionais sem avaliações comparáveis de consumo de energia, reagentes, emissões e gestão de resíduos.

Do ponto de vista econômico, o desafio é manter uma recuperação eficiente à medida que aumentam os volumes processados, especialmente porque a concentração de lítio varia entre diferentes fontes de água.

A experiência da Element3 mostra que a recuperação comercial de lítio a partir de resíduos da atividade petrolífera deixou de ser apenas uma possibilidade de laboratório. O próximo desafio será demonstrar que a tecnologia pode sustentar uma produção contínua, competitiva e em maior escala.

Por enquanto, a planta de Midland confirma que uma atividade tradicionalmente associada à extração de combustíveis fósseis também pode fornecer matérias-primas para a indústria de baterias. Sua capacidade de 3.000 toneladas anuais é uma referência industrial concreta, mas atingir esse volume e replicar o sistema em outros campos petrolíferos ainda são objetivos que precisam ser comprovados.