
A 1.250 metros abaixo da superfície de Malmberget, no norte da Suécia, dois caminhões elétricos com peso bruto total de 120 toneladas já transportam minério de ferro em uma mina subterrânea. Os veículos, desenvolvidos em parceria entre LKAB e Scania, podem transportar mais de 70 toneladas de material por viagem e contam com baterias de 624 quilowatts-hora (kWh). A incorporação dos caminhões permite verificar se a propulsão elétrica pode substituir equipamentos a diesel em uma das atividades mais exigentes do transporte mineral.
A experiência representa um avanço em relação aos testes anteriores das duas empresas, que haviam usado caminhões elétricos de menor capacidade, principalmente em operações de superfície. Os novos veículos atuam no circuito de produção de Malmberget, transportando minério dos pontos de descarga subterrâneos até as instalações de britagem.
Mais de 100.000 toneladas de minério transportadas no subsolo
Os dois caminhões são cavalos mecânicos elétricos com semirreboques adaptados às condições da mineração subterrânea. A configuração permite atingir aproximadamente 120 toneladas de peso bruto combinado, incluindo o próprio equipamento e a carga transportada. Portanto, esse valor não corresponde exclusivamente à capacidade de carga útil, que supera ligeiramente 70 toneladas.
Na etapa inicial de operação, os veículos transportaram mais de 100.000 toneladas de minério de ferro em aproximadamente 1.500 viagens de ida e volta, segundo os resultados divulgados por Peter Gustavsson, responsável pelo projeto de eletrificação de equipamentos móveis da LKAB.
As medições preliminares também indicaram que os caminhões podem operar por cerca de sete horas com uma carga de bateria. Nesse período, cada unidade demonstrou capacidade para completar aproximadamente 45 ciclos de transporte e movimentar cerca de 3.200 toneladas de material, dependendo das condições do trajeto.
Os trajetos avaliados têm entre 1,2 e 5,5 quilômetros, o que permite estudar o consumo de energia sob diferentes exigências operacionais. Esses números refletem o desempenho observado nas primeiras etapas de trabalho e ainda não representam uma garantia de rendimento para qualquer operação de mineração.
Baterias de 624 kWh para operar a mais de um quilômetro de profundidade
A eletrificação de caminhões de grande porte apresenta desafios específicos quando os equipamentos precisam operar em grandes profundidades. Além de transportar cargas elevadas, eles devem cumprir ciclos repetitivos de deslocamento, manobrar em espaços restritos e manter disponibilidade compatível com as necessidades de produção.
Cada um dos novos caminhões conta com baterias com capacidade de 624 kWh, e o sistema de recarga permite operar com potência de até 375 quilowatts.
A LKAB informou que os tempos de recarga ficaram próximos de 80 minutos durante os testes. No entanto, as informações divulgadas não permitem determinar com precisão quanta energia utilizável é reposta nesse intervalo nem afirmar que o tempo se aplique a todas as condições de carga.
A temperatura do ambiente também influencia o funcionamento dos veículos. Embora Malmberget esteja em uma região de invernos extremamente frios, as galerias subterrâneas mantêm temperaturas relativamente constantes, entre 12 e 15 graus Celsius.
Essa estabilidade térmica favorece o funcionamento das baterias em comparação com as variações extremas de temperatura a que os equipamentos de superfície podem ser expostos.
Ainda assim, o verdadeiro desafio é integrar recarga e manutenção a uma operação de mineração que não pode parar por períodos prolongados.
Uma mina que movimenta mais de 50.000 toneladas de minério de ferro por dia
A escala de Malmberget explica a importância dos testes com esses veículos. A LKAB movimenta diariamente mais de 50.000 toneladas de minério de ferro nessa mina, onde o transporte é essencial para manter o abastecimento das instalações de processamento.
Inicialmente, os dois caminhões elétricos foram incorporados a um regime de dois turnos, com aproximadamente 16 horas de atividade diária. A empresa busca determinar as condições necessárias para ampliar o uso dos veículos e avaliar modelos de operação contínua.
O objetivo não é apenas demonstrar que um veículo elétrico pode transportar cargas pesadas. A LKAB precisa comprovar que os equipamentos conseguem manter níveis adequados de produtividade, disponibilidade mecânica e eficiência energética por períodos prolongados.
A eliminação dos gases de escapamento é outra vantagem potencial. Na mineração subterrânea, os motores a diesel geram emissões que precisam ser controladas por sistemas de ventilação, essenciais para garantir condições de trabalho adequadas.
A substituição de parte desses equipamentos por veículos elétricos poderia reduzir as emissões locais da combustão e a exposição dos trabalhadores a esses gases. Também abre a possibilidade de diminuir certas necessidades de ventilação, embora eventuais economias de energia devam ser calculadas de acordo com as características de cada mina.
A eletrificação não elimina todas as emissões ambientais relacionadas ao transporte, que dependem de fatores como a geração de eletricidade e a fabricação das baterias.
LKAB começou com um caminhão elétrico bem menor
A chegada desses gigantes não surgiu de um teste isolado. A parceria entre LKAB e Scania começou anos antes, quando as duas empresas colocaram em operação um caminhão elétrico Scania 25P XT para transportar materiais na superfície.
Esse veículo, com peso bruto total de 49 toneladas, começou a operar em Malmberget em dezembro de 2022.
Ao concluir uma importante etapa de avaliação, em março de 2025, o veículo havia percorrido aproximadamente 50.000 quilômetros e transportado mais de 300.000 toneladas de material. A LKAB também calculou que a experiência permitiu evitar cerca de 30 toneladas de emissões de dióxido de carbono.
Os testes trouxeram informações sobre problemas técnicos que não haviam sido previstos inicialmente. Um deles foi o resfriamento do óleo do sistema hidráulico, já que o motor elétrico não gera o mesmo calor residual que um motor a diesel. A dificuldade foi solucionada com a instalação de um sistema auxiliar de aquecimento.
Também foram observadas mudanças no uso dos freios, pois a recuperação de energia durante as desacelerações reduzia a necessidade de recorrer à frenagem convencional.
Esses resultados permitiram avançar para veículos de maior capacidade e operações mais exigentes.
O próximo desafio será substituir caminhões a diesel de forma permanente
Paralelamente aos veículos de 120 toneladas, Scania e LKAB desenvolveram outro caminhão elétrico, chamado Sleipner, com quatro eixos, sendo dois dianteiros direcionais.
O veículo tem peso bruto total de 60 toneladas, capacidade útil de 38 toneladas, baterias de 416 kWh e motor elétrico de 400 kW. Foi projetado para transportar rocha estéril por um percurso de aproximadamente cinco quilômetros, com desnível de 250 metros.
A próxima etapa prevê avaliar o funcionamento contínuo do veículo durante 24 horas, para determinar se ele pode substituir completamente um caminhão a diesel equivalente em uma tarefa produtiva específica.
A estratégia da LKAB prevê atingir 30% de eletrificação de sua frota de equipamentos de mineração até 2027, além da meta de movimentar e carregar pelo menos cinco milhões de toneladas de material por ano sem emissões locais de escapamento.
Os resultados de Malmberget fornecem dados concretos para esse objetivo. Ainda assim, será necessário verificar o desempenho dos veículos por períodos mais longos, especialmente em termos de disponibilidade, custos de manutenção, recarga e produtividade em comparação com as alternativas convencionais.
A experiência sueca mostra que caminhões elétricos de grande porte já podem participar diretamente do transporte de minério a mais de um quilômetro de profundidade. A questão que ainda falta responder é se os resultados permitirão ampliar o uso dessa tecnologia em uma parcela maior das frotas de mineração subterrânea.









