
A mineradora Agnico Eagle incorporou em Quebec, no Canadá, um robô especializado no combate a incêndios e no apoio a resgates subterrâneos, capaz de operar em ambientes com temperaturas superiores a 500 graus Celsius. Apresentado ao público em 16 de julho de 2026, o equipamento foi desenvolvido para atuar em áreas onde o calor, a fumaça e outros riscos impedem a entrada segura de equipes de resgate. A tecnologia integra um projeto criado para reforçar a resposta a emergências em três operações de ouro da empresa.
A iniciativa envolveu um investimento de aproximadamente um milhão de dólares canadenses e quase dois anos de pesquisa, avaliação e testes. O objetivo é permitir que as brigadas de mineração inspecionem áreas perigosas, identifiquem focos de calor e comecem a combater incêndios sem se expor imediatamente às condições do local.
O sistema também responde a uma preocupação crescente da mineração subterrânea: a complexidade de lidar com emergências em espaços confinados, especialmente quando envolvem equipamentos elétricos de grande porte e baterias de alta capacidade.
Uma máquina de 500 quilos preparada para enfrentar temperaturas extremas
O protagonista do projeto é o TEC800, um robô de intervenção desenvolvido pela francesa Angatec, especializada em equipamentos telecomandados para combater incêndios e realizar operações em ambientes perigosos.
A máquina pesa cerca de 500 quilos e se desloca sobre esteiras, uma configuração que facilita a movimentação em superfícies irregulares. Tem aproximadamente 1,6 metro de comprimento, 79 centímetros de largura e 68,5 centímetros de altura, dimensões que permitem seu uso em espaços relativamente estreitos.
Sua velocidade máxima é de 12 quilômetros por hora, e a propulsão elétrica é alimentada por baterias recarregáveis.
Uma de suas características mais importantes é a resistência ao calor. A Agnico Eagle confirmou que o sistema está preparado para funcionar a temperaturas superiores a 500 °C, enquanto as especificações do fabricante preveem condições de até 700 °C com a proteção de aspersores de água ativada.
Essa capacidade depende do funcionamento do sistema de refrigeração. Portanto, não significa que todos os componentes possam ficar expostos a essas temperaturas por tempo indeterminado.
A unidade conta com sensores que permitem monitorar as condições térmicas e acionar mecanismos de resfriamento antes que os níveis se tornem críticos.
Pode arrastar 300 metros de mangueiras e transportar até 800 quilos
O robô não foi projetado apenas para observar incêndios. Também pode atuar diretamente por meio de um canhão de água controlado a distância, que permite direcionar o jato a áreas específicas sem que um brigadista precise se aproximar das chamas.
Outra capacidade do TEC800 é arrastar até 300 metros de mangueira com água, uma tarefa especialmente exigente para as equipes humanas quando precisam avançar por túneis, rampas e galerias subterrâneas.
A plataforma suporta cargas de até 800 quilos, o que permite transportar materiais e equipamentos de emergência para locais onde o acesso das equipes de resgate é perigoso.
A arquitetura modular do fabricante prevê acessórios como suportes para macas, sistemas de ventilação e dispositivos de observação. Essas configurações ampliam as possíveis aplicações do robô, que pode ser usado em operações de evacuação, transporte de suprimentos e reconhecimento de áreas afetadas.
Para inspecionar as áreas atingidas, o robô conta com câmeras térmicas e dispositivos de visão que ajudam a identificar pontos quentes e observar condições de baixa visibilidade.
As informações são transmitidas aos operadores por sistemas de comunicação remota, permitindo que avaliem o cenário antes de decidir pela entrada de pessoas.
Incêndios em baterias elétricas impulsionaram o projeto
A incorporação do robô também está relacionada às mudanças tecnológicas nas operações subterrâneas.
A Agnico Eagle introduziu veículos elétricos na mina Odyssey, onde conta com mais de 20 unidades desse tipo. O uso desses veículos traz novos desafios para os procedimentos de emergência, especialmente diante de um eventual incêndio em baterias.
Incidentes envolvendo baterias de íons de lítio podem provocar fuga térmica, liberação de gases e dificuldades para controlar a temperatura dos componentes afetados.
Nesses cenários, a aproximação direta da fonte do incêndio pode expor os trabalhadores a altas temperaturas e contaminantes perigosos.
Benoît Massicotte, diretor corporativo de Saúde e Segurança da Agnico Eagle, apontou a incorporação de veículos elétricos como um dos fatores que levaram a empresa a investigar alternativas robóticas para as brigadas.
O objetivo não é substituir completamente as equipes de resgate, mas oferecer uma ferramenta que permita fazer uma primeira aproximação, reunir informações e executar determinadas manobras antes de expor trabalhadores.
Essa diferença é especialmente relevante na mineração subterrânea, onde a ventilação, as rotas de evacuação e as condições de acesso podem dificultar uma intervenção.
Três minas vão compartilhar o mesmo robô de emergência
O projeto reúne as equipes de Saúde e Segurança das operações Odyssey, LaRonde e Goldex, além de especialistas do Centro de Apoio e Desenvolvimento da Agnico Eagle.
A empresa decidiu criar uma capacidade de resposta compartilhada, em vez de destinar a máquina exclusivamente a uma única operação.
O robô permanece em Odyssey, dentro de um reboque adaptado com os equipamentos necessários para sua mobilização. Entre eles estão aparelhos de respiração autônoma, uma bomba de combate a incêndio e outros materiais especializados.
Essa localização permite dar apoio às operações vizinhas. LaRonde fica cerca de 40 quilômetros a oeste de Odyssey, enquanto Goldex está aproximadamente 18 quilômetros a leste.
A disponibilidade regional não elimina o tempo de deslocamento nem a necessidade de mobilizar as brigadas. Ainda assim, permite concentrar equipamentos especializados e pessoal capacitado para atuar em diferentes operações.
Um aspecto técnico fundamental é a comunicação subterrânea. O robô pode utilizar as redes LTE disponíveis nas três operações e conta com um sistema alternativo baseado em antenas repetidoras alimentadas por baterias.
A solução busca manter o contato com os operadores quando o sinal convencional é insuficiente ou as instalações de comunicação ficam comprometidas.
Foram à França para estudar o uso de robôs em emergências
A escolha da tecnologia começou com uma avaliação de riscos e de alternativas de intervenção.
Em dezembro de 2024, três especialistas da Agnico Eagle viajaram à França para conhecer sistemas robóticos utilizados por serviços de emergência e analisar sua possível adaptação à mineração subterrânea.
Durante esse processo, estudaram experiências de atuação em túneis e outras instalações onde incêndios podem gerar condições especialmente complexas.
Em seguida, a fabricante Angatec participou da capacitação da equipe, enviando dois instrutores que conduziram um programa de treinamento de três semanas.
As equipes das três operações mineiras participaram de exercícios de operação em ambiente subterrâneo. A preparação envolve brigadistas e especialistas em eletricidade, mecânica e informática, devido às exigências de operação e manutenção.
O trabalho também busca identificar limitações práticas, sobretudo as relacionadas à conectividade, ao deslocamento e ao funcionamento dos sistemas nas condições específicas de cada mina.
O desafio que falta: comprovar a eficácia durante uma emergência real
Apesar das especificações técnicas e dos exercícios realizados, o robô ainda precisa comprovar seu desempenho em uma emergência real em uma mina.
Em sua apresentação de julho, a Agnico Eagle confirmou que a unidade não havia sido utilizada em uma ocorrência real. Uma atualização de 29 de outubro de 2026 manteve essa condição e descreveu novos testes subterrâneos e atividades de preparação operacional.
A empresa havia estabelecido outubro como meta para alcançar a plena disponibilidade do sistema, mas não há confirmação pública posterior que permita afirmar que esse marco foi atingido.
Por enquanto, as capacidades de resistência ao calor, transporte de cargas e intervenção remota correspondem às especificações técnicas do equipamento e aos resultados da preparação, e não a uma eficácia comprovada durante um incêndio real em uma mina.
A experiência em Quebec permitirá avaliar se esse tipo de tecnologia pode ser incorporado de forma permanente aos protocolos de resgate e quais condições devem ser atendidas para seu uso seguro.
Na mineração subterrânea, o principal interesse está em uma possibilidade concreta: enviar uma máquina para áreas extremamente perigosas antes de expor os trabalhadores, facilitando a avaliação da emergência e as primeiras ações de controle enquanto a intervenção humana é organizada.









