
A australiana Orica apresentou, em 29 de outubro de 2026, o GEOExplorerIQ, uma nova plataforma digital desenvolvida para reunir informações de radares, sensores terrestres e sistemas de monitoramento por satélite em um único ambiente. A tecnologia busca aprimorar a vigilância dos taludes de minas, as enormes paredes rochosas que cercam as operações a céu aberto e cuja estabilidade é fundamental para a segurança de trabalhadores, equipamentos e instalações.
Desenvolvida pela Orica Digital Solutions, a plataforma busca enfrentar um dos desafios do monitoramento geotécnico: interpretar grandes volumes de informações geradas por diferentes instrumentos, que normalmente operam em plataformas e procedimentos independentes.
A proposta é conectar esses registros para que os especialistas possam acompanhar a evolução do terreno, comparar medições e identificar mudanças que exigem atenção.
Como detectar movimentos quase imperceptíveis em uma mina
Os taludes de uma operação de mineração estão sujeitos a condições geológicas e operacionais que podem alterar progressivamente sua estabilidade.
Durante a extração de minerais, as escavações modificam a geometria do terreno e as condições de tensão das massas rochosas. A esses fatores se somam as características geológicas, a presença de água e outros elementos que influenciam o comportamento do terreno.
Os movimentos nem sempre são visíveis a olho nu. Algumas deformações podem se desenvolver gradualmente e exigem instrumentos especializados para serem identificadas e avaliadas.
Por isso, as operações de mineração utilizam diferentes tecnologias de monitoramento.
Os radares de estabilidade de taludes permitem medir deslocamentos em superfícies rochosas. Sensores instalados no terreno fornecem informações sobre deformações e condições internas, enquanto determinadas técnicas de observação por satélite permitem analisar movimentos superficiais em áreas extensas.
Também são utilizados instrumentos como inclinômetros, que registram variações de inclinação ou deformação, e piezômetros, empregados para medir a pressão da água no terreno.
O desafio surge quando essas informações precisam ser analisadas em conjunto. Um deslocamento detectado por radar pode ganhar maior relevância quando comparado aos registros de outros sensores e à sua evolução histórica.
O GEOExplorerIQ busca justamente facilitar essa análise integrada, permitindo que as equipes geotécnicas consultem diferentes fontes de informação em um ambiente digital compartilhado.
A tecnologia conecta seis marcas especializadas da Orica
A nova plataforma faz parte do ecossistema digital ODS e foi desenvolvida para integrar progressivamente tecnologias de seis marcas que compõem o portfólio Geosolutions da Orica.
Entre elas está a GroundProbe, especializada em radares para monitorar movimentos e riscos geotécnicos, além de NavStar, Measurand, RST Instruments, Syscom Instruments e 3vGeomatics.
Essas empresas fornecem tecnologias relacionadas a medições superficiais, instrumentação subterrânea, monitoramento estrutural e observação remota.
O sistema também prevê a conexão com determinadas soluções desenvolvidas por terceiros, um recurso importante para operações que já contam com equipamentos de diferentes fabricantes.
A integração permitirá relacionar registros de diferentes instrumentos, visualizar tendências, gerenciar alertas e eventos e elaborar relatórios técnicos.
Por exemplo, os especialistas poderão comparar informações obtidas por interferometria de radar por satélite, conhecida como InSAR, com medições de instrumentos instalados diretamente no terreno.
Essa comparação ajuda a formar uma visão mais completa das mudanças observadas, embora a interpretação de seu significado e gravidade continue dependendo da análise geotécnica.
A Orica informou que a conexão entre as tecnologias de seu portfólio será feita progressivamente. Portanto, o lançamento não significa que todos os instrumentos e sistemas externos estarão integrados desde o início.
Alertas e dados compartilhados para avaliar riscos
Um dos objetivos do GEOExplorerIQ é ampliar o acesso a informações para as equipes responsáveis por avaliar a estabilidade das operações.
A plataforma permite comparar conjuntos de dados, identificar tendências, gerenciar alertas e registrar eventos relacionados ao monitoramento.
Isso pode ser especialmente importante em minas a céu aberto, onde a evolução dos taludes precisa ser monitorada em diferentes etapas da operação e, em alguns casos, após o encerramento das atividades produtivas.
Matthew Craft, responsável por Produto e Desenvolvimento de Software da Orica Digital Solutions, explicou que a proposta é reunir dados, análises e processos de trabalho para oferecer uma visão integrada das condições superficiais e subterrâneas, além das observadas por sensores remotos.
A centralização das informações também busca facilitar a coordenação entre os profissionais que monitoram diferentes áreas de uma operação.
No entanto, detectar movimentos não significa necessariamente prever um deslizamento. A estabilidade de um talude depende de múltiplas variáveis, e uma alteração registrada por um instrumento não significa, por si só, que ocorrerá uma falha.
A plataforma é uma ferramenta de apoio ao monitoramento e à tomada de decisões, não uma garantia de antecipação ou prevenção de todos os incidentes geotécnicos.
Uma plataforma voltada também para infraestrutura e energia
Embora o monitoramento de taludes seja uma de suas aplicações mais relevantes na mineração, a Orica desenvolveu o GEOExplorerIQ para atender também a projetos de infraestrutura e energia.
Nessas atividades, a integração de sensores de superfície, instrumentos subterrâneos e medições por satélite pode contribuir para monitorar recalques do terreno, deformações e movimentos que afetem as instalações.
A plataforma utiliza a infraestrutura do Microsoft Azure e foi desenvolvida segundo critérios de segurança alinhados aos padrões certificados da ISO 27001, voltados à gestão da segurança da informação.
Essa arquitetura permite centralizar informações e facilitar o trabalho de equipes distribuídas em diferentes localidades.
O lançamento também amplia a estratégia da Orica de integrar suas tecnologias de monitoramento em uma oferta digital conjunta, para além de seu negócio tradicional de explosivos e soluções de desmonte.
O que ainda precisa ser comprovado após o lançamento
A GEOExplorerIQ já foi apresentada comercialmente, mas a Orica não divulgou, no anúncio, números específicos sobre minas que tenham implementado a nova plataforma, investimentos associados à sua implantação ou resultados quantificados na redução de incidentes.
A empresa também não informou um percentual de melhora na antecipação de movimentos geotécnicos atribuível ao novo sistema.
Por enquanto, o principal avanço anunciado é a capacidade de reunir e relacionar informações de diferentes tecnologias em um mesmo ambiente de análise.
O impacto operacional deverá ser avaliado com base em implementações concretas, levando em conta a qualidade dos dados disponíveis, a compatibilidade entre os equipamentos e a capacidade dos especialistas de interpretar os sinais do terreno.
A aposta da Orica é permitir o monitoramento dos enormes taludes das minas de forma mais integrada, combinando medições terrestres e por satélite para identificar mudanças que, sem instrumentação especializada, poderiam passar despercebidas.









