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O sal de Maras depende de uma nascente: o que muda para quem o colhe se a vazão diminuir

Duas nascentes abastecem os tanques na encosta, mas as medições disponíveis não mostram como a vazão varia entre as estações.

O sal de Maras depende de uma nascente: o que muda para quem o colhe se a vazão diminuir

Nas salinas de Maras, em Cusco, a água salgada não chega a cada tanque por bombeamento: desce por gravidade de duas nascentes e percorre canais e reservatórios antes de se espalhar pela encosta. Se a vazão diminuísse, o efeito direto seria menos água disponível para encher os cristalizadores ou mais tempo de espera entre as irrigações. No entanto, os registros publicados não permitem afirmar que exista hoje uma tendência de queda nem calcular quanto da produção seria perdido.

As fontes são chamadas Orqopujio e Chinapujio. Uma medição de campo de 2017, citada em uma dissertação de mestrado de Patricia Salas Recharte, da Universidad Nacional de San Antonio Abad del Cusco, registrou vazões de 0,5 e 0,33 litro por segundo, respectivamente. A tabela registra o tempo que levaram para encher quatro litros: oito segundos na primeira nascente e doze na segunda. São medições pontuais, não uma série de monitoramento sazonal; por isso, descrevem aquelas observações, mas não comprovam como a vazão varia durante uma seca nem qual é a vazão atual.

As nascentes abastecem canais e reservatórios por gravidade

A disposição das salinas aproveita a inclinação do cerro Qaqawiñay. A água captada entra em uma canalização principal, que se ramifica em canais menores até chegar aos tanques escalonados. O inventário turístico do Ministério do Comércio Exterior e Turismo descreve cerca de 4.500 tanques e informa que a infraestrutura distribui a água salgada desde a captação por meio dessa rede. Os números de tanques variam entre documentos e correspondem a contagens feitas em anos diferentes, portanto não devem ser interpretados como um censo atualizado.

Um artigo de 2014 do antropólogo Oriol Beltran, da Universitat de Barcelona, descreve reservatórios chamados puñoc, construídos com pedra e argila. Segundo o estudo, o número deles havia aumentado de cinco para 17; eles servem para armazenar água salgada durante a noite e aproveitar melhor a vazão disponível ao longo da safra. O estudo também descreve tanques com áreas entre 4,5 e 25 metros quadrados, nos quais a água fica exposta ao sol e ao vento: à medida que evapora, o sal cristaliza.

O armazenamento pode ajudar a regular o abastecimento ao longo do dia, mas as fontes consultadas não calculam por quanto tempo seria possível manter a produção se a contribuição das nascentes diminuísse. Também não documentam um protocolo de distribuição por turnos comparável ao usado em alguns sistemas de irrigação agrícola.

Uma redução da vazão afetaria o enchimento, não apenas o volume colhido

A pesquisa de Beltran aponta que, durante a safra, os produtores costumam voltar a abastecer os tanques aproximadamente a cada três dias, depois que o sal da irrigação anterior se satura. A colheita descrita ocorre cerca de um mês após o início do ciclo, quando se forma uma camada de sal com aproximadamente quatro a cinco centímetros. Se chegasse menos água à rede, esses intervalos poderiam aumentar ou os produtores teriam de priorizar quais tanques encher; são possíveis consequências do processo produtivo, não efeitos medidos em Maras durante uma redução comprovada da vazão.

A distribuição também tem uma dimensão comunitária. As salinas pertencem às comunidades camponesas de Maras e Pichingoto e, segundo o inventário do ministério, cerca de 400 famílias são proprietárias de tanques. Beltran alertou que a falta de regulamentação formal da distribuição poderia favorecer quem estivesse mais perto da fonte ou dos reservatórios e gerar desentendimentos entre produtores. Em um cenário de menor disponibilidade, essa organização seria relevante para determinar como a água é distribuída, embora as fontes citadas não documentem mudanças recentes nas regras.

A estação chuvosa altera a colheita, mas não comprova uma redução da vazão

Os documentos distinguem a disponibilidade de água salgada das condições para evaporá-la. O artigo de 2014 explica que a produção se concentra na estação seca, quando a radiação solar e a ventilação favorecem a evaporação. As chuvas podem dificultar esse processo e diluir a água dos tanques; essas condições, por si só, não comprovam que a vazão das nascentes salgadas tenha diminuído.

Também há uma diferença importante entre os números publicados: Beltran estimou, em 2014, uma vazão de 10 litros por segundo, enquanto a dissertação baseada em dados de campo de 2017 registrou 0,5 e 0,33 litro por segundo em Orqopujio e Chinapujio. Os documentos consultados não apresentam métodos comparáveis que permitam explicar essa diferença, nem uma série contínua que confirme uma queda. A dissertação de Salas identifica as duas nascentes salgadas, mas informa que sua origem é desconhecida; por enquanto, os dados disponíveis não permitem transformar uma medição pontual em uma tendência hidrológica.