
O acampamento de Chuquicamata deixou de ser uma cidade residencial quando a Codelco transferiu seus moradores para Calama e reservou a área para o desenvolvimento da mineração. A decisão combinou razões ambientais e produtivas: o povoado ficava ao lado de uma operação que precisava de mais espaço, enquanto a população vivia exposta a contaminantes associados à atividade industrial.
O fechamento oficial ocorreu em 31 de agosto de 2007, após 92 anos de existência do acampamento. A mudança, porém, não aconteceu de uma só vez: o Projeto de Transferência foi elaborado em 1996, e o deslocamento das famílias ocorreu gradualmente. Um estudo acadêmico publicado em 2010 estima que o processo envolveu 3.400 famílias e cerca de 18.000 pessoas; a Codelco descreveu a transferência como uma mudança de mais de 10.000 pessoas. Os números não são idênticos, por isso é melhor entendê-los como estimativas divulgadas com diferentes abrangências.
A expansão da mineração e a contaminação impulsionaram a transferência
O trabalho “Do assentamento mineiro ao espaço continental”, publicado em abril de 2010 na revista EURE, foi escrito por Eugenio Garcés Felíu, Juan O’Brien e Marcelo Cooper. Os autores analisaram o papel territorial e social de Chuquicamata ao longo do século XX. Em sua reconstrução, o fechamento foi motivado por vários fatores: ampliar as instalações industriais e a exploração da jazida, dispor de espaço para armazenar rejeitos a uma distância economicamente viável, reduzir os custos de manutenção do acampamento e transferir as famílias para uma área residencial com melhores condições ambientais.
O aspecto sanitário tinha um precedente formal. Em 1992, Chuquicamata foi declarada zona saturada por material particulado, arsênio e anidrido sulfuroso. A regulamentação determinou que, a partir de 1º de janeiro de 2003, não seria mais permitido dormir no acampamento sob essa exposição. A Codelco construiu mais de 3.500 moradias em Calama para receber os moradores.
A mudança também separou fisicamente dois espaços que funcionavam em conjunto: a mina e o cotidiano de seus trabalhadores. O acampamento concentrava moradias, comércio, escolas, serviços públicos e locais de encontro. O estudo de 2010 caracteriza esse modelo como uma company town: um assentamento organizado em torno da operação de mineração, cuja continuidade dependia das necessidades produtivas.
Uma análise urbana reconstituiu as mudanças no acampamento
Em 2022, Fabiola Olivares Contreras, José Prada Trigo e Leonel Ramos Santibáñez publicaram na Urbano, revista ligada à Universidade de Concepción, uma análise histórica do Acampamento Nuevo. A equipe comparou bibliografia e plantas de diferentes períodos para observar mudanças na malha urbana, no crescimento e na distribuição social. O levantamento foi complementado por três grupos de discussão realizados em março de 2021, com 12 antigos moradores: trabalhadores, pessoas que eram crianças ou jovens na época do fechamento e mulheres residentes.
Essa abordagem permite descrever tanto as transformações físicas quanto os vínculos comunitários relatados nos depoimentos, mas não constitui uma pesquisa representativa de todos os ex-moradores. Os autores dividem a história urbana em etapas e descrevem uma fase posterior de obsolescência, marcada pelo soterramento parcial do acampamento. O hospital Roy H. Glover, inaugurado em 1962, foi soterrado em 2004.
A proteção patrimonial preserva marcos, mas não devolve a cidade residencial
O fechamento não significou que todo o povoado desapareceu. Em janeiro de 2015, o Conselho de Monumentos Nacionais declarou o antigo acampamento Zona Típica e reconheceu como Monumentos Históricos o centro cívico, a Casa 2000, imóveis do Acampamento Americano, o cemitério, a Pala Mundial e arquivos documentais. A proteção reconhece valores históricos, sociais, territoriais, urbanos e arquitetônicos, mas não restabelece as moradias nem a vida comunitária que dependia delas.
Esse contraste ajuda a entender o que permanece: lugares e objetos protegidos que contam a história do acampamento, além de áreas afetadas pelo avanço dos resíduos da mineração. O estudo urbano de 2022 descreve como o crescimento industrial e o depósito de rejeitos foram cercando e cobrindo partes do povoado. Assim, a antiga cidade não ficou simplesmente vazia: parte de seus vestígios foi reconhecida como patrimônio, enquanto outra foi incorporada às transformações da área de mineração.









