
Serra Pelada, no estado brasileiro do Pará, passou de uma descoberta de ouro em uma fazenda a reunir dezenas de milhares de garimpeiros em uma enorme escavação manual. A cena que ficou na memória — filas de homens subindo escadas e carregando sacos — foi resultado de uma corrida do ouro que começou entre o fim de 1979 e o início de 1980, quando foi encontrado ouro na fazenda Três Barras, entre Marabá e a região de Carajás.
A reconstrução acadêmica de Armin Mathis, publicada em 1995 em Papers do NAEA, da Universidade Federal do Pará, situa ali o início do garimpo. Nos primeiros dias, segundo o artigo, três equipes obtiveram mais de 8 quilos de ouro em duas semanas. A notícia se espalhou rapidamente: mais de 1.000 pessoas chegaram em poucos dias e, quando os espaços no setor mais rico se esgotaram, algumas começaram a trabalhar nas colinas próximas, onde também encontraram ouro.
De uma descoberta em Três Barras a uma escavação sob controle do Estado
A dimensão da descoberta atraiu garimpeiros de diferentes partes do Brasil. O relatório do Banco Mundial sobre os problemas ambientais e econômicos da Amazônia, publicado em 1992, registra que, em meados de 1980, já haviam chegado pelo menos 30.000 garimpeiros. Em 1982, mais de 50.000 trabalhavam em Serra Pelada e Cumaru, um número conjunto que não deve ser confundido com uma contagem exclusiva da jazida. Em 1983, um documento apresentado ao Congresso brasileiro estimou em cerca de 80.000 homens a população de Serra Pelada no auge. São estimativas de períodos diferentes, não um registro censitário uniforme.
O Estado interveio em maio de 1980. O governo assumiu o controle da área, e a administração passou depois por órgãos federais, entre eles o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM); em novembro de 1985, a coordenação foi transferida para a cooperativa dos garimpeiros, segundo uma cronologia publicada na imprensa oficial brasileira da época. O controle estatal também respondeu a preocupações com a segurança, a venda não regulamentada do ouro e a arrecadação. O Banco Mundial registrou que, em meados de 1980, a produção girava em torno de 26 quilos por dia, embora esse número se refira àquele momento inicial, e não à produção de todo o ciclo.
Como era o trabalho: catas, sacos e turnos nas paredes de barro
A extração era manual. Os garimpeiros escavavam pequenas áreas de trabalho — catas ou barrancos — e retiravam o material do fundo da cava com as próprias mãos. Para levá-lo até a superfície, usavam sacos e escadas apoiadas nas paredes do buraco. Assim se formou a imagem de uma escada humana: não era uma estrutura única, mas o fluxo contínuo de trabalhadores e cargas entre os diferentes níveis da escavação. Uma ficha do Museu de Arte de Cleveland identifica como obra de Sebastião Salgado uma fotografia de Serra Pelada feita em 1986, parte da série Workers; a imagem mostra homens subindo por poços em degraus com sacos de terra e barro.
Os dados de produção mostram que a corrida do ouro não avançou em linha reta. No estudo de Mathis, uma tabela atribuída a dados do DNPM distingue a produção oficial da estimada: para 1980, registra 6.630 quilos oficiais e 8.287 estimados; para 1983, 13.947 quilos oficiais e 17.433 estimados. A diferença é importante: o registro oficial não corresponde a todo o ouro extraído, e as estimativas dependem dos cálculos utilizados. Em 1983, o relatório técnico anual da CPRM — o serviço geológico brasileiro — sobre a área de Serra Pelada foi elaborado por Alberto Rogério Benedito da Silva, Edivaldo Vilhena de Amaral e Luciano José Amaral de Melo.
A produção caiu, e o trabalho manual deu origem a uma disputa
O pico de produção foi seguido por uma forte queda. A tabela de Mathis registra 2.613 quilos oficiais em 1984, ante quase 14.000 no ano anterior. À medida que a cava se aprofundava, a continuidade do trabalho manual virou motivo de disputa entre os garimpeiros, o governo e os interesses da mineração formal. O Banco Mundial descreve o conflito entre quem defendia a permanência dos garimpeiros e as empresas com direitos sobre áreas de extração; também registra que as organizações de garimpeiros se mobilizaram para proteger seu acesso à jazida.
As imagens mais conhecidas não são fotografias da descoberta nem do auge inicial: o arquivo do International Center of Photography data de 1986 uma imagem de Salgado intitulada Serra Pelada, Brazil, e o Museu de Cleveland cataloga outra obra daquele ano na série Workers. Portanto, elas documentam uma etapa posterior aos picos de produção, quando o local ainda concentrava trabalhadores e o esforço físico continuava marcando a exploração. A atividade de extração na cava foi encerrada em 1992, segundo um estudo histórico sobre a corrida do ouro no Brasil; os números acumulados variam entre registros oficiais e estimativas, uma diferença que continua sendo central para reconstituir quanto ouro realmente saiu de Serra Pelada.









