
A fabricante chinesa SANY desenvolveu um caminhão de mineração elétrico que dispensa completamente a cabine do motorista. Trata-se do SKT145Ei, um equipamento autônomo da categoria de 90 toneladas, apresentado durante uma cúpula de mineração realizada em Xi'an, na China, em maio de 2026, cujas características tecnológicas foram divulgadas posteriormente pela empresa. Sua principal inovação não está apenas em operar sem um profissional a bordo, mas também em ter sido projetado desde o início para transportar materiais sem a necessidade de um posto de condução convencional.
A máquina combina propulsão elétrica, sistemas de percepção do entorno e tecnologias de controle automatizado. Com essa configuração, a SANY busca transformar o transporte de rocha e minério em minas a céu aberto, onde os caminhões fazem trajetos repetitivos entre os pontos de carregamento e descarregamento.
Um caminhão projetado desde o início para dispensar o motorista
Ao contrário dos caminhões de mineração convencionais adaptados para a condução autônoma, o SKT145Ei utiliza uma arquitetura desenvolvida especificamente para operar sem cabine.
Essa diferença altera a distribuição dos componentes. Em vez de reservar espaço para banco, volante, pedais e instrumentos de condução, a fabricante pode organizar os sistemas eletrônicos e de percepção considerando diretamente as necessidades da operação automatizada.
A eliminação da cabine também permite reduzir o comprimento total do veículo, característica que facilita seu deslocamento por vias estreitas de minas.
Zhang Long, integrante da equipe de soluções de mineração inteligente da SANY, explicou durante a apresentação técnica do modelo que transformar um caminhão tradicional em autônomo impõe limitações relacionadas à localização de sensores e controladores.
Já uma plataforma projetada sem motorista permite otimizar esses componentes e facilitar inspeções e tarefas de manutenção.
O resultado é uma máquina cuja parte dianteira deixa de ser condicionada pelas necessidades de visibilidade e conforto de uma pessoa. Seu projeto atende principalmente aos requisitos de transporte, autonomia e segurança operacional.
Sensores e sistemas inteligentes substituem a observação do motorista
Um dos aspectos centrais do SKT145Ei é seu sistema de percepção do entorno, que combina diferentes tecnologias para identificar as condições de circulação.
O caminhão conta com sensores LiDAR, radares de ondas milimétricas e câmeras de visão, cujos dados são processados em conjunto para orientar as decisões de condução.
Os sensores LiDAR utilizam pulsos de luz laser para medir distâncias e criar representações tridimensionais do entorno. Os radares permitem detectar objetos e estimar sua posição e movimento, enquanto as câmeras fornecem informações visuais complementares.
A combinação dessas tecnologias busca reduzir a dependência de um único sistema de detecção, especialmente em ambientes onde as condições de visibilidade podem mudar rapidamente.
Esse aspecto é relevante na mineração, onde poeira em suspensão, precipitações, neblina e irregularidades do terreno representam desafios para os veículos automatizados.
O equipamento também conta com um sistema de frenagem com tripla redundância, projetado para oferecer mecanismos de reserva em caso de determinadas falhas.
No entanto, a adoção de sensores e sistemas redundantes não significa que todos os riscos desapareçam. A segurança também depende das condições das vias, das comunicações, da manutenção e da coordenação com outros equipamentos e trabalhadores.
Bateria de 801 kWh para transportar grandes cargas
A eletrificação é o segundo componente tecnológico do projeto.
O SKT145Ei conta com uma bateria de 801 quilowatts-hora (kWh), destinada a fornecer energia ao sistema de propulsão e aos componentes necessários para a operação autônoma.
Essa capacidade atende às exigências do transporte na mineração, em que os veículos precisam deslocar cargas elevadas e enfrentar rampas, superfícies irregulares e ciclos contínuos de aceleração e frenagem.
A SANY também informou que o equipamento conta com um sistema de carregamento de conexão dupla, com refrigeração líquida, projetado para permitir recargas de alta potência.
A tecnologia busca reduzir os períodos de parada para reabastecimento energético, embora a fabricante não tenha divulgado informações suficientes para determinar quanto tempo leva uma carga completa do SKT145Ei em diferentes condições operacionais.
Também não há dados públicos verificados sobre sua autonomia efetiva por ciclo, o consumo de energia por tonelada transportada ou o desempenho em comparação com um caminhão a diesel equivalente.
Do ponto de vista ambiental, a propulsão elétrica elimina as emissões pelo escapamento durante a operação do veículo. No entanto, o balanço total de emissões depende de fatores como a origem da eletricidade utilizada e a fabricação das baterias.
Três modalidades de operação e uma frota conectada
Embora não tenha motorista a bordo, isso não significa que o caminhão opere sem qualquer intervenção humana.
A solução apresentada pela SANY prevê três modalidades: operação autônoma, controle remoto e intervenção local.
A condução autônoma permite que o veículo se desloque com base nas informações dos sensores, nos sistemas de navegação e no planejamento de rotas.
O controle remoto permite que um operador supervisione ou assuma determinadas funções quando as condições de trabalho exigirem.
Por sua vez, a modalidade de intervenção local prevê a participação de profissionais em campo por meio de sistemas de controle habilitados para esse fim, sem que isso implique a existência de uma cabine tradicional.
Essa arquitetura integra uma solução de automação mais ampla, que reúne caminhões, sistemas de despacho em nuvem, infraestrutura de comunicação e coordenação com outros equipamentos de mineração.
Nesse modelo, a gestão do transporte deixa de depender exclusivamente das decisões individuais de cada motorista e passa a ser organizada por plataformas capazes de supervisionar vários veículos.
A empresa afirma que esse modelo pode melhorar o planejamento dos trajetos e reduzir a exposição direta dos trabalhadores a determinados riscos da operação.
SANY já acumula milhões de quilômetros com caminhões autônomos
O desenvolvimento do SKT145Ei ocorre em um momento em que a SANY busca ampliar sua participação no mercado de mineração automatizada.
Até julho de 2026, a empresa informou que havia colocado em operação mais de 300 caminhões de mineração autônomos, com um percurso acumulado superior a 13 milhões de quilômetros e o transporte de mais de 41 milhões de metros cúbicos de terra e rocha.
Esses números correspondem ao conjunto das operações autônomas da empresa, e não exclusivamente ao novo SKT145Ei.
Outro marco importante ocorreu em 12 de agosto de 2026, quando a SANY enviou para a América do Sul seu primeiro lote de caminhões de mineração elétricos autônomos SKT110Ei.
O envio inclui uma solução que reúne veículos, despacho inteligente e serviços de manutenção. No entanto, trata-se de um modelo diferente do SKT145Ei sem cabine e, portanto, não confirma a chegada deste último às operações sul-americanas.
A empresa também não divulgou detalhes sobre uma carteira de pedidos, um cronograma de entregas ou resultados operacionais independentes específicos para seu novo caminhão sem cabine.
Além disso, a SANY não é a única fabricante que trabalha nesse conceito. Na China, já foram desenvolvidos outros caminhões de mineração elétricos autônomos sem posto de condução, incluindo equipamentos ligados à XCMG e projetos conjuntos da EACON e da Tonly.
O que muda para os trabalhadores e as operações de mineração
A eliminação da cabine representa uma mudança que vai além da aparência dos equipamentos pesados.
Com a retirada do motorista do veículo, parte das tarefas tradicionais de transporte pode ser transferida para centros de supervisão, gestão de frotas, manutenção tecnológica e intervenção remota.
Isso altera as competências necessárias para operar sistemas de transporte de mineração e cria novas demandas de capacitação.
Ao mesmo tempo, a operação autônoma exige infraestrutura digital, procedimentos de segurança e mecanismos de resposta a falhas que permitam manter os equipamentos sob controle.
No caso do SKT145Ei, ainda faltam informações públicas para determinar suas vantagens econômicas reais em relação às alternativas convencionais, bem como a dimensão de sua implantação comercial.
Por enquanto, a inovação mais concreta está em sua arquitetura: a SANY deixou de considerar a cabine um elemento indispensável do caminhão de mineração e projetou uma plataforma na qual sensores, componentes eletrônicos e sistemas autônomos assumem as funções que tradicionalmente exigiam um motorista a bordo.






