
Uma mina de ouro na Indonésia vai instalar um sistema capaz de transportar mais de 5.100 toneladas de minério por hora e gerar eletricidade durante a descida. O projeto foi anunciado em 22 de outubro de 2026 e prevê a instalação de um transportador RopeCon, da empresa austríaca Doppelmayr, na mina Pani, localizada na ilha de Sulawesi. A tecnologia vai aproveitar a energia gravitacional do minério para produzir eletricidade, que poderá ser reutilizada na operação.
A PT Pani Industri Nusantara, empresa ligada ao grupo de mineração Merdeka Copper Gold, escolheu essa solução para conectar a área de extração a uma futura planta de processamento de ouro por carvão em lixiviação, conhecida pela sigla CIL, em inglês.
O contrato prevê a instalação do primeiro sistema RopeCon desse tipo na Indonésia. Sua principal característica é que não será necessário consumir eletricidade para movimentar toda a carga na descida: o próprio deslocamento do minério permitirá recuperar parte dessa energia por meio de um mecanismo de frenagem regenerativa.
Uma correia transportadora suspensa que movimentará 5.100 toneladas por hora
O sistema previsto terá aproximadamente 550 metros de extensão e vencerá um desnível superior a 130 metros, atravessando terrenos de topografia complexa.
Ao contrário de uma correia transportadora convencional, instalada sobre estruturas contínuas próximas ao solo, o RopeCon combina elementos de teleféricos industriais com uma correia transportadora.
O minério britado será transportado sobre uma correia com bordas laterais onduladas, projetadas para manter o material na superfície de transporte.
A correia conta com eixos equipados com rodas, que se deslocam sobre cabos de aço de sustentação. Esses cabos ficam suspensos por estruturas de apoio, permitindo que o transportador atravesse áreas irregulares sem a necessidade de uma plataforma contínua ao longo do terreno.
A capacidade anunciada supera 5.100 toneladas por hora. Como referência, uma instalação que transportasse exatamente esse volume durante 24 horas consecutivas movimentaria 122.400 toneladas de material em um único dia.
No entanto, esse número representa apenas um cálculo baseado na capacidade nominal. O volume efetivamente transportado dependerá dos horários de operação, do fornecimento de minério, da disponibilidade dos equipamentos e das necessidades de processamento.
Como o peso das rochas permitirá gerar eletricidade
O aspecto mais notável do projeto está no aproveitamento da gravidade.
Quando uma correia transportadora desloca grandes volumes de material de um ponto mais alto para outro mais baixo, o peso da carga favorece o movimento descendente.
Em vez de dissipar toda essa energia por meio de sistemas convencionais de frenagem, é possível usar um acionamento regenerativo para transformar parte da energia mecânica em eletricidade.
O mecanismo funciona com motores elétricos capazes de atuar como geradores. Durante a descida da carga, o sistema controla a velocidade da correia e converte parte da energia do movimento em eletricidade que pode ser recuperada.
Para a instalação de Pani, o projeto prevê a recuperação de aproximadamente 2 megawatts (MW), potência que será reutilizada nas instalações da mina.
Para dimensionar esse valor, uma potência constante de 2 MW durante uma hora equivale a 2 megawatts-hora (MWh) de energia. Se fosse mantida por 24 horas seguidas, corresponderia a 48 MWh.
Esse último cálculo é apenas ilustrativo e não representa uma estimativa da geração diária real. A produção de eletricidade dependerá do fluxo de minério, das condições de operação e da eficiência do sistema.
Portanto, o transportador não deve ser confundido com uma usina elétrica independente. Sua principal função continuará sendo transportar minério, enquanto a recuperação de energia ajudará a reduzir a eletricidade que a mina precisará obter de outras fontes.
Por que a mina Pani precisa desse sistema
A instalação faz parte do desenvolvimento da mina de ouro Pani, localizada na província de Gorontalo, no norte da ilha de Sulawesi.
A jazida é operada pela Merdeka Gold Resources, empresa do grupo Merdeka Copper Gold, e iniciou as atividades de extração em 1º de outubro de 2025.
A operação obteve sua primeira produção de ouro em fevereiro de 2026, por meio da lixiviação em pilhas, processo de recuperação do metal que utiliza soluções químicas aplicadas sobre o minério previamente preparado.
Paralelamente, a empresa está desenvolvendo uma nova unidade de processamento pelo método CIL, no qual o ouro é recuperado com carvão ativado dentro do circuito de lixiviação.
A primeira planta CIL foi projetada para processar 12 milhões de toneladas de minério por ano e tem início de operação previsto para 2028, de acordo com o cronograma divulgado pela empresa.
Nesse contexto, o RopeCon ficará encarregado de transportar o minério britado da área da mina até a nova unidade.
A alta capacidade horária do transportador permitirá movimentar grandes volumes de material, mas isso não significa que a planta processará continuamente 5.100 toneladas por hora. A capacidade instantânea de transporte e o processamento anual são indicadores diferentes.
Menos infraestrutura no terreno e recuperação de energia
A escolha de um sistema suspenso também leva em conta as características do terreno.
Uma correia transportadora convencional pode exigir estruturas de apoio contínuas, movimentação de terra e obras adicionais para atravessar desníveis ou áreas de difícil acesso.
O projeto RopeCon permite transpor obstáculos por meio de cabos esticados entre estruturas, reduzindo a necessidade de construir infraestrutura ao longo de todo o percurso.
Essa configuração pode reduzir as intervenções diretas em determinadas áreas e facilitar o transporte de grandes volumes de material por uma rota mais direta.
A recuperação de energia elétrica é outra vantagem potencial em relação a soluções de transporte que não aproveitam a energia da descida.
No entanto, ainda não há resultados operacionais do projeto que permitam quantificar a economia efetiva, a redução anual do consumo de energia elétrica ou as emissões evitadas.
Esses benefícios terão de ser comprovados depois que a correia transportadora for instalada, entrar em operação e funcionar nas condições reais da mina.
O projeto ainda precisa passar pela etapa de instalação
A adjudicação do contrato confirma a escolha da tecnologia, mas não significa que o sistema já esteja transportando minério ou gerando eletricidade.
Até o momento, as informações públicas sobre o projeto apresentam as principais características técnicas: capacidade superior a 5.100 toneladas por hora, percurso próximo de 550 metros, desnível superior a 130 metros e recuperação de energia elétrica estimada em aproximadamente 2 MW.
O valor do contrato e uma data específica para o início da operação da correia transportadora ainda não foram informados.
As próximas etapas serão a fabricação e a instalação dos componentes, sua integração à infraestrutura de Pani e os testes necessários para verificar o desempenho do transporte e da recuperação de energia.
O projeto abre, assim, uma aplicação industrial relevante: usar a energia do próprio minério que desce pela mina para gerar eletricidade, combinando duas funções que tradicionalmente são avaliadas separadamente no projeto de sistemas de transporte mineral.









