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Se você fosse trabalhador do salitre em 1907, uma greve poderia levar você e sua família a Iquique

A mobilização reuniu em Iquique trabalhadores de diferentes oficinas, longe dos acampamentos onde viviam.

Se você fosse trabalhador do salitre em 1907, uma greve poderia levar você e sua família a Iquique

Em dezembro de 1907, trabalhadores de diferentes oficinas salitreiras deixaram o Pampa e chegaram a Iquique para exigir mudanças nos salários e nas condições de trabalho. Alguns seguiram a pé; outros grupos foram chegando de diferentes pontos de Tarapacá. Famílias de trabalhadores também participaram. Em 21 de dezembro, tropas dispararam contra a multidão reunida na Escola Santa María.

Salários, vales e pulperías estavam no centro da pauta de reivindicações

A greve começou na oficina San Lorenzo, no cantão de San Antonio, e se estendeu a outros centros salitreiras. A taxa de câmbio e o encarecimento das mercadorias agravavam o conflito: os trabalhadores recebiam seus salários em um contexto de desvalorização do peso chileno frente à libra esterlina. A reivindicação de receber 18 pence por peso buscava estabelecer uma referência para as remunerações.

A pauta incluía ainda o pagamento dos salários em dinheiro, e não em vales, o fim dos abusos nas pulperías — os armazéns das oficinas — e o pagamento pelo processamento de caliche de baixo teor enviado às rampas. As reivindicações trabalhistas conviviam com queixas sobre um sistema cotidiano em que a empresa podia controlar tanto o pagamento quanto o acesso a produtos básicos. A Memoria Chilena também registra reivindicações históricas por segurança no trabalho, escolas nos acampamentos e menos controle sobre a correspondência.

A mobilização não foi um protesto isolado de um único acampamento. Na cronologia da Biblioteca Nacional, a greve começou em San Lorenzo em 9 de dezembro e se espalhou rapidamente; a apresentação da instituição, porém, situa a eclosão do movimento no dia 10. Nos dias seguintes, a paralisação chegou a outros cantões, e novos grupos se juntaram ao movimento na cidade.

Trabalhadores e famílias desceram das oficinas até Iquique

Em 15 de dezembro, chegou a Iquique uma coluna com mais de 2.000 trabalhadores. Documentos históricos descrevem o deslocamento de trabalhadores do Pampa e a participação de famílias de dezenas de oficinas. A rede ferroviária salitreira conectava numerosos acampamentos à costa, mas isso não significa que todos tenham viajado de trem: segundo a reconstrução da Memoria Chilena, a primeira coluna caminhou até a cidade.

Em Iquique, as autoridades alojaram os grevistas na Escola Domingo Santa María. O número de pessoas continuou aumentando: em 19 de dezembro, telegramas reunidos pelo Arquivo Nacional estimavam que havia entre 10.000 e 12.000 trabalhadores na cidade, enquanto outros grupos ainda desciam do interior. A dimensão da mobilização transformou uma disputa iniciada nas oficinas em um conflito que também alcançou o porto e os trabalhadores urbanos.

As negociações foram entravadas pela exigência dos empresários de que os trabalhadores voltassem primeiro às operações. Uma proposta previa enviá-los de volta de trem enquanto as companhias consultavam suas matrizes em Londres e na Alemanha. Os trabalhadores rejeitaram a proposta: os vagões disponíveis eram plataformas abertas, e a viagem seria feita à noite. Decidiram permanecer em Iquique até receber uma resposta às suas reivindicações.

Em 21 de dezembro, a Escola Santa María foi alvo de tiros

Em 20 de dezembro, o intendente Carlos Eastman decretou estado de sítio e restringiu reuniões e circulação. No dia seguinte, as tropas exigiram que os grevistas deixassem a escola. Diante da recusa, o general Roberto Silva Renard ordenou que abrissem fogo. O Arquivo Nacional conserva documentos de autoridades sobre as negociações e a repressão; é preciso considerar que os registros foram produzidos por funcionários envolvidos na condução do conflito.

O total de vítimas continua incerto. Um telegrama enviado pelo intendente pouco depois do massacre informou 30 mortos e 70 feridos; o relatório do administrador do Hospital e do Lazareto de Iquique, incluído em uma comunicação oficial de janeiro de 1908, registrou 126 mortos e 135 feridos. O número de 3.600 mortos, difundido na memória coletiva por meio da Cantata de Santa María de Iquique, não corresponde a essas contagens oficiais. A Biblioteca Nacional alerta que a falta de fontes documentais impede determinar com certeza quantas pessoas morreram.