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O que aconteceu sob Muzo para dar origem às suas famosas esmeraldas?

Em Boyacá, as esmeraldas de Muzo se formam em um ambiente geológico diferente do encontrado em muitas outras jazidas de gemas.

O que aconteceu sob Muzo para dar origem às suas famosas esmeraldas?

As esmeraldas de Muzo, em Boyacá, se formaram quando fluidos quentes circularam por rochas sedimentares escuras e fraturadas — e não em associação com corpos ígneos, como ocorre em muitos outros depósitos dessa gema. O modelo geológico mais aceito combina salmouras de origem sedimentar, evaporitos e folhelhos negros ricos em matéria orgânica. Essa interação teria mobilizado os elementos necessários para a cristalização do berilo verde.

A explicação foi desenvolvida, entre outros estudos, por T. L. Ottaway, F. J. Wicks, L. T. Bryndzia, T. K. Kyser e E. T. C. Spooner em “Formation of the Muzo hydrothermal emerald deposit in Colombia”, publicado na Nature em 16 de junho de 1994. A equipe propôs que salmouras hidrotermais transportaram sulfato de origem evaporítica para zonas estruturalmente favoráveis. Ali, uma reação de redução teria gerado enxofre, capaz de interagir com a matéria orgânica dos folhelhos e liberar cromo, vanádio e berílio, elementos associados à formação da esmeralda.

Folhelhos negros e fraturas concentraram a mineralização

O distrito fica no flanco oeste da bacia da Cordilheira Oriental. A mineralização ocorre em folhelhos negros do Cretáceo Inferior, intercalados com calcários dolomíticos. Durante uma fase de compressão no Paleógeno, falhas e estruturas de cavalgamento deformaram essas rochas e criaram canais para a circulação de fluidos. Nos contatos tectônicos, são encontradas brechas hidrotermais e veios carbonáticos; alguns têm esmeraldas entre seus minerais acessórios.

Nesses veios também ocorrem calcita, dolomita e pirita, além de quartzo, barita, fluorita e outros minerais. Essa associação é importante porque registra a passagem e a reação dos fluidos: o modelo propõe que as salmouras alteraram os folhelhos, favoreceram a formação de carbonatos e pirita e mobilizaram berílio, cromo e vanádio. A esmeralda, uma variedade de berilo, incorpora cromo e vanádio à sua estrutura; o berílio é um componente essencial do mineral.

Uma descrição do Serviço Geológico Nacional — antecessor do atual Serviço Geológico Colombiano — já registrava, em 1959, argilas negras piritosas dobradas e numerosas fissuras preenchidas principalmente por calcita. O relatório de Hernán Restrepo A., publicado no Boletín Geológico, registrou que as fissuras com esmeraldas geralmente tinham entre 2 e 10 centímetros de largura, embora as fraturas com calcita variassem de menos de um milímetro a cerca de 40 centímetros. Essas observações de campo mostram que as gemas não estão distribuídas de maneira uniforme por toda a rocha: elas se concentram em estruturas específicas.

A salmoura e a reação química explicam a origem incomum

O modelo hidrotermal-sedimentar situa a formação das salmouras perto de 300 °C. Segundo o modelo sintetizado pela Comissão Internacional de Geoherança da IUGS, águas quentes da bacia dissolveram evaporitos e se tornaram salinas; em seguida, reagiram com os folhelhos negros, alterando-os e extraindo berílio, cromo e vanádio. A redução termoquímica dos sulfatos teria contribuído para a precipitação de pirita, calcita, dolomita e, em etapas relacionadas, esmeralda. A temperatura faz parte do modelo geológico, não é uma condição medida em cada cristal de Muzo.

A cronologia também foi estudada por meio de minerais associados. Um trabalho publicado em 1994 na Economic Geology usou datação 40Ar/39Ar com microssonda a laser em agregados de mica potássica rica em cromo e vanádio, considerada contemporânea à mineralização. O estudo estimou idades de 32 a 38 milhões de anos para a área de Muzo; também analisou inclusões fluidas em cristais de Coscuez — não de Muzo — por microtermometria, espectroscopia Raman e microscopia eletrônica. Por isso, os resultados das inclusões de Coscuez ajudam a caracterizar fluidos do cinturão ocidental, mas não devem ser apresentados como medições diretas de cada veio de Muzo.

A sequência proposta reúne, portanto, três ingredientes que precisavam coincidir: rochas sedimentares com matéria orgânica e elementos disponíveis, salmouras quentes capazes de transportá-los e fraturas que permitissem sua circulação e precipitação. É um modelo respaldado por relações geológicas, associações minerais e estudos geoquímicos; isso não significa que cada pulso de fluido seja conhecido com precisão nem que todas as esmeraldas tenham se formado em condições idênticas.