
O governo salvadorenho e o grupo Cox vão impulsionar um programa que prevê uma usina de ciclo combinado de 380 MW, unidades solares, baterias com capacidade de até 1.000 MWh e infraestrutura de água e saneamento. A execução dependerá de acordos específicos, financiamento e autorizações.
O Governo de El Salvador e a empresa espanhola Cox assinaram um acordo para desenvolver um programa de investimentos estimado em US$2.900 milhões, destinado a ampliar a infraestrutura energética, incorporar armazenamento de eletricidade e modernizar os serviços de água e saneamento do país centro-americano. A parceria, firmada em 13 de outubro de 2026, em San Salvador, e detalhada pela empresa no dia seguinte, prevê um terminal de gás natural liquefeito, uma usina elétrica de aproximadamente 380 megawatts (MW), duas usinas fotovoltaicas e sistemas de baterias conectados à rede nacional.
O acordo foi assinado pelo presidente salvadorenho, Nayib Bukele, e pelo presidente-executivo da Cox, Enrique Riquelme, durante cerimônia realizada na Casa Presidencial.
A iniciativa prevê quatro áreas de investimento: US$1.800 milhões em infraestrutura de gás natural, US$600 milhões em água e saneamento, US$300 milhões em armazenamento de eletricidade e US$200 milhões em geração solar.
O programa é um dos anúncios de investimento privado de maior porte já feitos em El Salvador. No entanto, os recursos correspondem a uma carteira de projetos planejada, e não a investimentos já desembolsados ou executados.
Usina de 380 MW e terminal de gás natural concentram US$1.800 milhões
O componente de maior valor econômico será o desenvolvimento de infraestrutura para importação, armazenamento e utilização de gás natural, com investimento estimado em US$1.800 milhões.
A iniciativa prevê um terminal de regaseificação de gás natural liquefeito (GNL), combustível transportado em estado líquido para facilitar seu armazenamento e transporte internacional.
Depois de recebido, o gás pode voltar ao estado gasoso em instalações especializadas e ser distribuído para uso em usinas elétricas e processos industriais.
O projeto também prevê a construção de uma usina de ciclo combinado com potência aproximada de 380 MW, destinada a ampliar a capacidade de geração elétrica do país.
Esse tipo de instalação combina turbinas a gás com um sistema que aproveita o calor dos gases de escape para produzir vapor e gerar eletricidade adicional.
A tecnologia permite obter maior eficiência energética do que uma usina convencional de ciclo simples, embora continue utilizando combustível fóssil e emitindo dióxido de carbono.
O governo salvadorenho estima que a infraestrutura também poderá se tornar uma plataforma de fornecimento de gás natural para outras empresas e mercados da América Central.
Bukele mencionou a possibilidade de comercializar esse combustível com países vizinhos, entre eles a Guatemala, embora essa expansão dependa da infraestrutura de transporte disponível e de futuros acordos comerciais.
O terminal e a usina ainda fazem parte de uma proposta de desenvolvimento. Não há confirmação de que a construção de qualquer uma das duas instalações tenha começado.
Duas usinas solares e baterias com capacidade de até 1.000 MWh
O segundo eixo energético do acordo busca ampliar a geração renovável e a capacidade de armazenamento de eletricidade.
A Cox desenvolverá, junto com a Comissão Executiva Hidrelétrica do Rio Lempa (CEL), duas usinas solares fotovoltaicas com potência inicial conjunta estimada em 200 MW.
O programa prevê a possibilidade de dobrar essa capacidade posteriormente, chegando a 400 MW.
Para a primeira etapa de geração solar, está previsto um investimento aproximado de US$200 milhões.
As instalações permitiriam ampliar a produção de eletricidade durante as horas de incidência solar e diversificar a matriz de geração salvadorenha.
De forma complementar, o acordo prevê US$300 milhões para desenvolver sistemas de armazenamento de energia com baterias.
A capacidade inicial prevista varia de 440 a 500 megawatts-hora (MWh), com possibilidade de expansão para até 1.000 MWh.
Esse último volume equivale a armazenar energia suficiente para fornecer, por exemplo, 250 MW de potência durante quatro horas, sem considerar as perdas do sistema.
O armazenamento permitirá transferir parte da eletricidade disponível em determinados períodos para horários de maior demanda ou de menor geração renovável.
Também poderá oferecer serviços de estabilização e suporte à rede elétrica, dependendo da configuração técnica e das condições de operação das instalações.
A combinação de geração fotovoltaica e baterias permitiria reduzir parte das limitações da produção solar, cuja disponibilidade varia entre o dia e a noite.
No entanto, as capacidades anunciadas ainda são estimativas de projeto. A potência definitiva, a localização, a tecnologia e o cronograma de entrada em operação dependerão do desenvolvimento de cada projeto.
US$600 milhões para melhorar o abastecimento de água potável e o saneamento
O terceiro componente do programa é a modernização dos serviços de abastecimento de água potável e saneamento.
O investimento previsto chega a US$600 milhões, destinados a aprimorar a gestão dos recursos hídricos, ampliar a cobertura dos serviços e melhorar sua qualidade.
A Cox atua internacionalmente no desenvolvimento e na operação de infraestruturas de tratamento de água, dessalinização e gestão hídrica, atividades que integram seus negócios junto com a geração de energia.
O acordo permitirá avaliar intervenções para modernizar instalações e aprimorar os sistemas existentes de abastecimento e saneamento.
No entanto, ainda não foi apresentado um detalhamento completo das obras, de suas localizações específicas, das capacidades de tratamento previstas nem do número de habitantes que poderiam ser beneficiados diretamente.
Essas informações deverão ser definidas por meio dos acordos técnicos e administrativos que serão formalizados posteriormente.
Cox estruturará o financiamento, e o Estado será sócio
Um dos aspectos mais relevantes do acordo é o modelo previsto para viabilizar os investimentos.
Cox ficará responsável pela estruturação financeira dos projetos por meio de mecanismos de project finance, sistema utilizado para desenvolver grandes obras de infraestrutura, cujo financiamento é respaldado por receitas futuras.
A empresa prevê a participação de instituições financeiras internacionais, organismos multilaterais e agências de crédito à exportação.
Além disso, terá responsabilidades no desenvolvimento, na construção, na operação e na manutenção das instalações.
Na área de energia, está prevista a participação do Estado salvadorenho como sócio, embora ainda seja necessário definir os detalhes de cada parceria e os compromissos correspondentes.
Esse modelo significa que a assinatura do acordo, por si só, não garante o financiamento integral.
Antes de avançarem para a construção, os investimentos terão de passar por etapas de avaliação técnica, estruturação financeira, obtenção de licenças regulatórias e formalização contratual.
A Cox estabeleceu um prazo de aproximadamente três anos para implementar as iniciativas previstas no programa.
A empresa também informou que espera avançar nas próximas semanas com as aprovações e os acordos específicos que permitirão desenvolver cada iniciativa.
Governo prevê tarifas de energia mais baixas e maior capacidade industrial
Durante a apresentação, Nayib Bukele afirmou que os investimentos poderiam reforçar o fornecimento de energia e contribuir para reduzir os custos da eletricidade para famílias e empresas.
O presidente associou essa expectativa à menor dependência de combustíveis usados atualmente na geração de eletricidade, entre eles o óleo combustível bunker.
No entanto, o acordo não garante uma redução efetiva das tarifas.
O resultado dependerá de fatores como os custos de construção, o preço internacional do gás natural, os contratos de fornecimento, as condições de financiamento e a regulação do setor elétrico no país.
A entrada em operação de novas fontes de geração também poderia favorecer a instalação de atividades produtivas que exigem eletricidade contínua e fornecimento de energia a preços competitivos.
Em particular, a combinação de infraestrutura de gás natural, geração renovável e armazenamento permitiria diversificar as tecnologias disponíveis para atender à demanda.
Bukele afirmou que o programa equivale a aproximadamente 7% do produto interno bruto de El Salvador e o apresentou como o maior investimento privado anunciado na história do país.
Essa comparação mostra a dimensão econômica do compromisso previsto, mas não significa que o valor total será incorporado imediatamente à economia nacional.
América Latina concentra expansão internacional da Cox
O acordo integra a estratégia de crescimento da Cox no continente americano.
A empresa espanhola atua nos segmentos de geração de energia, transmissão elétrica, armazenamento e gestão da água.
Atualmente, a América Latina concentra aproximadamente 95% das atividades da empresa, que prevê um programa regional de investimentos superior a US$7.000 milhões em projetos estratégicos.
Entre as operações e os projetos recentes da companhia estão sua expansão no México, iniciativas de água e energia e projetos de transmissão elétrica no Brasil.
A empresa coordena sua plataforma regional para as Américas a partir do Panamá, de onde busca fortalecer a gestão de seus ativos e investimentos.
A entrada no programa salvadorenho ampliaria sua presença na América Central e permitiria sua participação em diferentes segmentos de infraestrutura por meio de uma mesma parceria empresarial.
Aprovações e financiamento definirão o avanço do programa
O próximo passo será transformar o acordo geral em contratos específicos para cada projeto.
As partes deverão definir as condições de participação pública e privada, o financiamento disponível, as responsabilidades pela construção e os mecanismos de operação das instalações.
Também será necessário concluir os estudos técnicos e ambientais exigidos, além de obter as licenças regulatórias correspondentes.
Por enquanto, não há uma data definitiva confirmada para o início da operação da usina de 380 MW, das usinas solares ou dos sistemas de baterias.
O programa anunciado prevê um conjunto de projetos de infraestrutura de grande porte para El Salvador, com investimentos que combinam combustíveis convencionais, energias renováveis, armazenamento e gestão hídrica.
Seu impacto econômico e energético dependerá da capacidade da Cox e do governo salvadorenho de obter financiamento, concluir as autorizações e executar as obras previstas. A concretização desses projetos determinará se o país conseguirá ampliar sua capacidade de geração, reforçar o abastecimento de gás natural e melhorar os serviços de água nos próximos anos.









