
O projeto HyLog–Biobío, liderado pela Marval em parceria com a Universidade de Concepción, prevê investimento de US$9,37 milhões, uma estação com capacidade para fornecer até 350 toneladas de hidrogênio por ano e uma futura frota de dez caminhões de alto tonelagem.
O Chile avança no desenvolvimento de um corredor de transporte pesado movido a hidrogênio verde que pretende conectar a Região Metropolitana à região de Biobío. A iniciativa, denominada HyLog–Biobío: Zero Emissions Transport, foi formalizada em 14 de outubro de 2026, durante o Summit Transición Energética Biobío, realizado em Hualpén. O projeto prevê infraestrutura de abastecimento em Talcahuano, a incorporação gradual de caminhões de carga e a validação de operações logísticas de longa distância com veículos cuja autonomia projetada chega a 700 quilômetros.
A iniciativa é liderada pela Marítima Valparaíso (Marval), com a Universidade de Concepción como coexecutora, e faz parte do programa Anillos Industriales, promovido pela Corporación de Fomento de la Producción (Corfo).
O objetivo é comprovar a viabilidade técnica e econômica do hidrogênio como combustível para o transporte de mercadorias entre centros industriais, portos e áreas de distribuição, reduzindo a dependência do diesel nas operações de carga pesada.
Formalizado em outubro, o projeto dá continuidade a uma iniciativa que já havia obtido financiamento público em janeiro de 2026. Portanto, o anúncio não corresponde a uma nova concessão de recursos, mas ao avanço de um projeto selecionado anteriormente.
Estação em Talcahuano fornecerá até 350 toneladas de hidrogênio por ano
Um dos principais componentes do HyLog–Biobío será a implantação de uma estação industrial de abastecimento de hidrogênio, conhecida tecnicamente como Hydrogen Refueling Station (HRS).
A infraestrutura está prevista para o polo industrial de Talcahuano e permitirá armazenar, comprimir e fornecer até 350 toneladas anuais de hidrogênio, capacidade projetada para abastecer operações de transporte pesado.
O projeto prevê o aproveitamento de hidrogênio residual proveniente de processos industriais, que será purificado para atender às especificações exigidas pelos veículos.
A alternativa busca valorizar fluxos industriais já existentes, embora a classificação ambiental do hidrogênio utilizado dependa de sua origem e da respectiva rastreabilidade energética.
Diferentemente de um posto convencional de combustíveis, o sistema deverá contar com equipamentos de tratamento, compressão, armazenamento em alta pressão e dispensadores especializados.
A operação também exigirá protocolos de segurança, manutenção e capacitação técnica para o manuseio desse combustível.
A estação atenderá inicialmente à demanda dos caminhões incorporados ao projeto, mas também está prevista a comercialização de parte do hidrogênio disponível para outras empresas interessadas em desenvolver aplicações industriais ou de transporte.
Dez caminhões de alto tonelagem e percursos de até 700 quilômetros
O projeto prevê a implantação de uma frota de dez caminhões de alto tonelagem equipados com tecnologia de células a combustível de hidrogênio.
Esses veículos usam o hidrogênio para gerar eletricidade por meio de uma reação eletroquímica, que alimenta motores elétricos responsáveis pela tração.
Ao contrário dos caminhões a diesel, eles não emitem dióxido de carbono diretamente durante a operação. A reação gera principalmente água, embora o impacto ambiental total também dependa de como o hidrogênio é produzido, processado e transportado.
A autonomia prevista de 700 quilômetros é um dos aspectos centrais da iniciativa.
Essa autonomia permitiria percorrer os cerca de 550 quilômetros entre Santiago e Concepción, dependendo das condições efetivas de operação, da carga transportada, do consumo de energia e da disponibilidade de estações.
Mauricio Ramírez, gerente de Desenvolvimento e Novos Negócios da Marval, explicou durante o encontro que o projeto permitirá testar caminhões em condições reais de operação em Biobío e avançar na implantação do corredor inter-regional.
A iniciativa também busca verificar o desempenho dos veículos, as necessidades de manutenção, os tempos de abastecimento e os custos associados a uma possível operação comercial.
A autonomia anunciada é uma especificação projetada e ainda não foi validada por uma frota de dez unidades em operação regular entre as duas regiões.
Corfo destinará US$5 milhões ao desenvolvimento do projeto
O investimento total declarado para o HyLog–Biobío é de US$9.372.750, dos quais a Corfo aportará US$5 milhões.
O financiamento público corresponde a aproximadamente 53,35% do custo total. O restante deverá ser coberto pelas contribuições previstas na estrutura financeira do projeto.
A seleção foi anunciada em 9 de janeiro de 2026, como parte de uma chamada destinada a estimular a demanda industrial por hidrogênio verde e seus derivados na região de Biobío.
Na ocasião, também foi selecionado um projeto da Fosfoquim, voltado à incorporação de hidrogênio em processos químicos relacionados à mineração de cobre e à indústria de celulose.
As duas iniciativas somam US$10 milhões em recursos públicos e buscam desenvolver diferentes aplicações para o hidrogênio: transporte de mercadorias e processos químicos industriais.
O HyLog–Biobío pretende gerar experiência operacional e demonstrar se a tecnologia pode ser usada de forma competitiva em setores nos quais os caminhões exigem grande autonomia e continuidade de serviço.
Uma nova conexão com a infraestrutura de Santiago
O corredor previsto está relacionado a outros projetos que começam a viabilizar o abastecimento de hidrogênio para veículos pesados no Chile.
Em 30 de setembro de 2026, Walmart Chile e Copec inauguraram, em Quilicura, uma estação destinada ao fornecimento de hidrogênio verde para caminhões de grande porte.
A instalação faz parte do programa tecnológico Hidrohaul, desenvolvido com a participação de Marval, IEE e Mining3 Chile, além do apoio da Corfo.
Durante a inauguração, foi realizado o primeiro abastecimento de hidrogênio, e um veículo da Marval iniciou um percurso de distribuição até Huechuraba.
A operação prevê inicialmente dois caminhões e constitui uma experiência diferente do projeto HyLog–Biobío, embora ambas as iniciativas compartilhem o objetivo de desenvolver capacidades para o transporte pesado.
A estação de Quilicura permite abastecer veículos com autonomia superior a 600 quilômetros e tempo estimado de recarga de aproximadamente 20 minutos.
A existência de infraestrutura na Região Metropolitana e a futura instalação de um polo em Talcahuano podem começar a criar as condições necessárias para trajetos inter-regionais.
No entanto, o corredor Santiago–Biobío ainda não está habilitado para operar comercialmente de forma contínua. Para viabilizá-lo, será necessário garantir disponibilidade de combustível, compatibilidade tecnológica, capacidade de abastecimento e acordos logísticos entre os diferentes participantes.
Caminhões podem começar a operar entre 2029 e 2030
A Marval estima que o desenvolvimento do HyLog–Biobío exigirá várias etapas até chegar a uma operação demonstrativa.
O planejamento prevê aproximadamente 20 meses para avançar até a decisão de investimento, além de atividades de engenharia e seleção tecnológica.
Depois, será necessário fabricar os equipamentos, construir e montar a infraestrutura e colocá-la em operação.
As estimativas apresentadas pela companhia apontam que as operações da primeira frota terão início em um prazo aproximado de 36 a 48 meses a partir de outubro de 2026, ou seja, entre 2029 e 2030.
Esses prazos são projeções e dependerão do cumprimento das etapas técnicas, financeiras e regulatórias.
O programa também permitirá avaliar o custo real do hidrogênio fornecido, o desempenho dos caminhões em trajetos de longa distância e a disponibilidade operacional dos sistemas de abastecimento.
Os resultados serão importantes para determinar se essa tecnologia pode ser adotada por mais empresas de transporte e em outras rotas industriais do país.
O impacto para a logística e a indústria do Biobío
A Região do Biobío reúne condições específicas para desenvolver aplicações de hidrogênio no transporte pesado, devido à concentração de indústrias florestais, químicas, manufatureiras e portuárias.
O transporte de matérias-primas e produtos acabados gera uma demanda significativa por transporte rodoviário, especialmente nas conexões com Santiago e outros centros de distribuição.
Uma alternativa de baixa emissão pode ser atraente para empresas que buscam reduzir a pegada de carbono de suas cadeias logísticas, sobretudo as que atendem mercados internacionais com exigências ambientais.
No entanto, a competitividade do hidrogênio em relação ao diesel e aos caminhões elétricos a bateria dependerá de fatores como o preço do combustível, o custo de aquisição dos veículos, a infraestrutura disponível e a intensidade de uso das frotas.
A assinatura do HyLog–Biobío representa um avanço na estruturação dessas capacidades, mas ainda há etapas decisivas até que o projeto se torne uma operação estável.
O principal desafio será demonstrar que os caminhões conseguem percorrer longas distâncias com custos, segurança e disponibilidade compatíveis com as necessidades do transporte industrial. Se os testes atingirem seus objetivos, a experiência poderá servir de referência para ampliar o uso do hidrogênio em corredores logísticos de outras regiões do Chile.









