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Austrália quer reservar até 20% do gás destinado à exportação e entra em conflito com Shell e Woodside

O governo australiano propõe uma lei que obrigaria as empresas exportadoras de gás a reservar até 20% dos volumes para o mercado interno, gerando tensão com grandes companhias.

Austrália quer reservar até 20% do gás destinado à exportação e entra em conflito com Shell e Woodside
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O governo apresentou um projeto de lei para garantir o abastecimento de residências e indústrias por meio de novas obrigações para as exportadoras de gás natural liquefeito. As empresas alertam que a medida pode reduzir os investimentos e comprometer futuros projetos de energia.

O governo da Austrália apresentou, em 14 de outubro de 2026, um projeto de lei que obrigaria as empresas exportadoras de gás natural liquefeito (GNL) a destinar ao mercado interno o equivalente a até 20% de seus volumes exportados. A iniciativa busca garantir o abastecimento energético do país e conter os preços, assegurando uma oferta equivalente a 110% da demanda prevista no leste australiano. No entanto, provocou críticas de grandes companhias, como Shell e Woodside Energy, que alertam para possíveis consequências para os investimentos e o desenvolvimento de novas jazidas.

A legislação, proposta pelo governo do primeiro-ministro Anthony Albanese, criaria o primeiro sistema nacional de reserva de gás para consumo doméstico, com obrigações de fornecimento previstas a partir de 1º de janeiro de 2028.

O mecanismo pretende corrigir uma situação que preocupa as autoridades australianas: apesar de ser um dos maiores exportadores mundiais de GNL, o país enfrenta riscos de escassez e custos elevados de abastecimento em determinadas regiões.

No entanto, a proposta ainda precisa passar pelo processo legislativo e não representa uma obrigação atualmente em vigor para as empresas.

Como funcionaria a reserva obrigatória de 20% do gás

O sistema, denominado Domestic Gas Reservation Scheme, vincularia as autorizações de exportação ao cumprimento de compromissos de abastecimento interno.

As empresas exportadoras de GNL teriam de fornecer ao mercado australiano uma quantidade equivalente a até 20% de seus volumes de exportação.

No entanto, o percentual efetivo não seria necessariamente de 20% todos os anos.

A legislação prevê que o Regulador Australiano de Energia (AER) ajuste as obrigações anualmente de acordo com as projeções de consumo, usando informações do Operador do Mercado de Energia Australiano (AEMO).

O objetivo seria manter uma oferta equivalente a 110% da demanda prevista, criando uma margem de disponibilidade próxima de 10% acima das necessidades estimadas do mercado.

O governo acredita que essa maior disponibilidade permitiria ampliar a concorrência entre fornecedores e reduzir a pressão sobre os preços internos.

Um aspecto importante é que não bastaria oferecer o combustível a compradores australianos. O projeto prevê obrigações efetivas de fornecimento, impedindo que as empresas cumpram as regras apenas com ofertas comerciais que não se concretizem.

A administração australiana estima que o mecanismo poderia acrescentar até 200 petajoules de gás por ano ao mercado doméstico.

Esse número corresponde ao potencial estimado da política, e não a um volume atualmente garantido por contratos.

Por que a Austrália precisa de gás apesar de ser uma grande exportadora

O problema energético australiano está estreitamente ligado à distribuição geográfica dos recursos e dos centros de consumo.

Uma parcela considerável da produção de gás se concentra no norte e no oeste do país, enquanto grandes centros industriais e populacionais ficam no leste e no sudeste.

Além disso, vários projetos de GNL operam com contratos internacionais de longo prazo que comprometem volumes significativos da produção.

Essa estrutura pode levar a situações em que há bastante gás destinado à exportação, mas dificuldades para garantir fornecimento a preços competitivos para determinadas indústrias australianas.

A Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores (ACCC) alertou que o abastecimento do mercado oriental depende das decisões comerciais dos exportadores e da disponibilidade de infraestrutura para transportar gás até os estados do sul.

Em sua avaliação, publicada em 9 de outubro, o órgão regulador projetou um excedente de aproximadamente 5 petajoules durante o primeiro trimestre de 2027, mesmo em um cenário no qual as empresas exportem todo o gás não comprometido.

No entanto, as condições podem se tornar mais restritivas durante o inverno austral, especialmente nos estados do sul, onde a queda da produção local aumenta a dependência do gás transportado de Queensland.

Os riscos de abastecimento no longo prazo explicam por que as autoridades buscam estabelecer um mecanismo permanente, em vez de depender exclusivamente de intervenções temporárias.

Shell alerta que a medida pode prejudicar novos investimentos

Uma das críticas mais contundentes veio da Shell Australia.

Sua presidente, Cecile Wake, questionou o desenho da proposta durante uma conferência do setor realizada em Sydney, em 13 de outubro.

A executiva comparou a intervenção ao uso de uma ferramenta excessivamente agressiva para resolver um problema mais limitado.

A principal crítica da Shell diz respeito à obrigação de manter uma oferta doméstica excedente e vender gás mesmo quando as condições comerciais não permitam recuperar adequadamente os investimentos necessários para produzi-lo.

A empresa argumenta que obrigar o aumento da oferta sem levar suficientemente em conta os custos de novos projetos pode derrubar os preços para níveis economicamente insustentáveis.

Nesse cenário, os produtores poderiam adiar atividades de exploração, expansões e novos investimentos, reduzindo a disponibilidade futura de gás.

A Shell avalia que uma regulação mal desenhada pode acabar provocando problemas de abastecimento — justamente o que o governo pretende evitar.

Suas observações são alertas empresariais sobre os possíveis efeitos da política, e não consequências já concretizadas.

Woodside questiona investimentos em novas jazidas

A Woodside Energy também manifestou preocupação com o impacto das obrigações de reserva sobre o desenvolvimento de novos recursos.

Seu diretor de operações, Breyden Lonnie, alertou que um projeto de perfuração no estreito de Bass pode não avançar se as novas regras afetarem significativamente os preços domésticos.

A empresa estuda oportunidades de desenvolvimento com quatro possíveis poços, que poderiam fornecer até 200 petajoules de gás comercializável ao mercado australiano.

O número corresponde ao potencial acumulado identificado para esses projetos, e não a uma produção anual garantida.

A Woodside afirmou que o grau de maturidade técnica das oportunidades e os efeitos do novo sistema regulatório influenciarão uma eventual decisão final de investimento.

O alerta ganha relevância porque o estreito de Bass é uma área importante para o abastecimento energético do sudeste da Austrália.

No entanto, a empresa não anunciou o cancelamento definitivo dessas iniciativas. A continuidade dependerá de avaliações técnicas, comerciais e regulatórias.

Governo defende medida para proteger a indústria

A ministra australiana dos Recursos, Madeleine King, defendeu a proposta e afirmou que o objetivo é reduzir os custos de energia sem provocar uma queda acentuada dos preços que prejudique os investimentos.

A ministra explicou que as obrigações seriam ajustadas de acordo com as necessidades do mercado, para evitar excedentes desproporcionais.

O governo busca beneficiar especialmente as indústrias que usam gás como matéria-prima ou combustível e ainda não dispõem de alternativas tecnicamente viáveis para eletrificar seus processos.

Entre elas estão atividades ligadas à fabricação de fertilizantes, produtos químicos, aço e outros materiais industriais.

A disponibilidade de gás também é considerada importante para garantir o fornecimento de energia elétrica nos períodos em que a produção de fontes renováveis diminui.

No entanto, as autoridades ainda não divulgaram uma estimativa precisa de quanto os preços cairiam para famílias e empresas.

Como referência, a ACCC informou que os contratos de fornecimento de longo prazo negociados no primeiro semestre de 2026, para entregas em 2027 e 2028, registraram valores médios próximos de 12 e 13 dólares australianos por gigajoule.

O efeito concreto da futura legislação dependerá da oferta disponível, dos custos de produção, das condições contratuais e da resposta dos participantes do mercado.

O que acontecerá com os contratos internacionais de exportação

Uma das principais preocupações do setor está relacionada aos compromissos comerciais já firmados com compradores estrangeiros.

A Austrália exporta grandes volumes de GNL para mercados asiáticos, onde o combustível é usado na geração de energia elétrica, em processos industriais e no aquecimento.

O projeto prevê o respeito aos contratos internacionais firmados antes do anúncio do governo, em 22 de dezembro de 2025.

O objetivo é evitar que as novas obrigações levem ao descumprimento de acordos já vigentes.

O sistema também prevê mecanismos de flexibilidade para reconhecer determinadas limitações de infraestrutura e condições específicas dos produtores.

No entanto, essas exceções abriram outro debate: se permitirem ajustes muito amplos, poderão reduzir a quantidade efetiva de gás adicional disponível para o mercado interno.

A discussão é especialmente relevante para os projetos de exportação de Queensland, dos quais participam empresas como Santos, Shell e Origin Energy.

Decisão ficará nas mãos do Parlamento australiano

A apresentação do projeto de lei abre uma nova etapa de debates sobre o equilíbrio entre segurança energética, preços domésticos e investimentos em hidrocarbonetos.

Organizações empresariais alertam que novas obrigações podem afetar a rentabilidade de futuros projetos, enquanto o governo afirma que reservar parte da produção permitirá dar mais previsibilidade a consumidores industriais e famílias.

A oposição parlamentar manifestou disposição para analisar a iniciativa, mas mantém dúvidas sobre seus efeitos nos investimentos e no fornecimento de longo prazo.

O Executivo também terá de definir como coordenar as obrigações nacionais com os mecanismos de reserva já existentes em alguns territórios, especialmente na Austrália Ocidental.

A previsão é que as novas exigências comecem a valer em janeiro de 2028, desde que o processo legislativo avance e as normas correspondentes sejam implementadas.

A disputa representa um desafio para um dos maiores exportadores de energia do mundo: garantir que seus recursos naturais abasteçam a economia nacional sem comprometer os investimentos necessários para manter a produção e cumprir os compromissos internacionais.

O resultado da tramitação definirá quanto gás as empresas terão de reservar, como as obrigações serão ajustadas e quais condições deverão cumprir para continuar exportando da Austrália.