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A rocha da Irlanda que parece feita à mão: como suas colunas se formaram?

Na costa de Antrim, colunas de contornos quase regulares despontam junto ao mar sem qualquer sinal de ferramentas.

A rocha da Irlanda que parece feita à mão: como suas colunas se formaram?

A Calçada dos Gigantes, no condado de Antrim, na Irlanda do Norte, é formada por cerca de 40.000 colunas de basalto. Não é uma contagem exata: o número é uma estimativa usada nas descrições do local, cuja superfície exibe prismas poligonais de rocha vulcânica formados há cerca de 60 milhões de anos. O padrão não foi esculpido: surgiu quando uma espessa massa de lava esfriou, se contraiu e se fraturou.

A sequência geológica foi mais complexa do que uma única erupção. A atividade vulcânica cobriu uma antiga paisagem de giz com derrames de basalto; depois, a erosão escavou vales que foram preenchidos por novas lavas. Na Calçada, um desses derrames se acumulou numa depressão, formando um lago de lava com aproximadamente 90 metros de profundidade. O resfriamento lento e relativamente uniforme desse volume permitiu que as fraturas se propagassem pela rocha.

Um derrame de até 90 metros esfriou e se contraiu

Ao perder calor, a lava solidificada se contrai. Essa contração gera tensões; quando elas superam a resistência da rocha, surgem rachaduras nas áreas que esfriam primeiro. As fraturas avançam para o interior, acompanhando a frente de resfriamento, e dividem o basalto em colunas. A orientação dos prismas reflete as superfícies por onde o calor escapou: por isso, as colunas costumam crescer aproximadamente na perpendicular a elas. O National Trust descreve o resfriamento lento das camadas inferiores e a contração como parte da formação do padrão hexagonal.

A geometria não corresponde a uma sequência de hexágonos perfeitos. As rachaduras se encontram em junções compartilhadas por várias colunas; à medida que a rede se desenvolve, as interseções tendem a se organizar em forma de Y, com ângulos próximos de 120 graus, como os de um hexágono. Mas também há pentágonos, heptágonos e polígonos irregulares. O resultado ordenado surge da propagação e da interação das fraturas, não de um desenho prévio.

Os polígonos apresentam variações, não uma simetria perfeita

Um estudo de Y. Akiba, A. Takashima, A. Inoue, H. Ishidaira e H. Shima, publicado em 2021 na revista Earth and Space Science, analisou padrões poligonais com base em fotografias aéreas feitas com drones e no processamento de imagens. A equipe mediu áreas, número de lados e ângulos das rachaduras em quatro locais do Japão. Constatou o predomínio de pentágonos e hexágonos e que os polígonos de maior área tendiam a ter mais vértices. No caso da Calçada, os autores não fizeram esse levantamento com drones: estimaram as estatísticas geométricas a partir de um desenho publicado em 1879. Nessa análise, o padrão da Calçada apresentou variações relativamente pequenas, mas a base de comparação histórica limita a precisão dessa conclusão.

Outro trabalho, de Lucas Goehring e Stephen W. Morris, publicado em 2008 no Journal of Geophysical Research, analisou 27 locais com basaltos na bacia do rio Columbia, nos Estados Unidos, e comparou as medições com padrões de amido seco e dados anteriores da Calçada. Nas colunas de basalto, a relação entre o desvio-padrão e a largura média foi de 0.317 ± 0.009; para a Calçada, calculada com base no levantamento de 1879, foi de 0.342 ± 0,02. Esses valores indicam que as redes de fraturas têm regularidade, mas também preservam irregularidades: não são mosaicos matematicamente exatos. O estudo também relacionou o tamanho das colunas à velocidade de resfriamento, embora as medições de campo tenham sido feitas nos Estados Unidos, e não em Antrim.

Depois de se formarem, as colunas ficaram parcialmente cobertas por outras camadas de rocha. Geleiras durante a Era do Gelo e, mais tarde, as ondas e a erosão costeira desgastaram essa cobertura e deixaram expostas as formas visíveis hoje. O número de cerca de 40.000 colunas descreve o conjunto identificado no local; as fontes consultadas não apresentam um inventário completo que permita tratá-lo como uma contagem individual exata.