
Uma lâmina de água sobre a crosta salina pode transformar o Salar de Uyuni em um espelho, mas a chuva, por si só, não garante essa paisagem: também importam a planicidade do terreno, a distribuição da água e a calmaria na superfície. Um estudo publicado em 2025 analisou como esse efeito varia em diferentes setores e ao longo da estação chuvosa.
O salar boliviano ocupa cerca de 10.582 km², segundo a NASA, e sua superfície apresenta variações topográficas geralmente inferiores a um metro. A chuva cai em uma bacia fechada, com uma rede de drenagem limitada: a água pode se acumular, em vez de escoar rapidamente. Quando cobre a crosta com uma camada rasa, a superfície reflete a luz de forma especular, ou seja, concentra o reflexo em uma direção e pode reproduzir o céu com nitidez.
A chuva se concentra entre dezembro e março, mas a água precisa ficar parada
A maior parte da precipitação ocorre entre dezembro e março. No artigo científico Satellite radar altimetry reveals spatial and temporal changes in water surface smoothness in the Salar de Uyuni, Bolivia, publicado em 19 de setembro de 2025 na revista Communications Earth & Environment, Stefano Vignudelli, Ron Abileah, Paula Pacheco Mollinedo e Francesco De Biasio analisaram dados de radar dos satélites Sentinel-3.
A equipe examinou cerca de 392.000 registros de radar, obtidos em seis trajetórias sobre o salar entre 2016 e 2024, e os comparou com dados de precipitação da estação de Uyuni do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia da Bolívia (SENAMHI). O radar permite avaliar a resposta da superfície: uma lâmina lisa devolve um sinal intenso e concentrado; ondas e outras irregularidades dispersam essa energia. Por isso, o vento também importa: pode agitar a água e reduzir a uniformidade do reflexo.
Os registros mostraram que as condições de superfície lisa surgem no início da estação chuvosa, mas sua frequência aumenta e atinge o pico entre o fim de janeiro e o início de março. A relação com as chuvas fica evidente na comparação entre temporadas: entre dezembro de 2022 e março de 2023, foram registrados 87 mm no total; no mesmo período de 2023-2024, o acumulado chegou a 265 mm. Na segunda temporada, o sinal de superfície especular se espalhou por uma área maior e persistiu por mais tempo.
Campanha de 2024 registrou água com 1,8 cm de profundidade e variações inferiores a 0,5 mm
Para verificar em campo o que o sinal de satélite indicava, os pesquisadores fizeram uma campanha no interior do salar entre 16 e 20 de fevereiro de 2024, durante uma passagem do Sentinel-3. No ponto medido, a água tinha 1,8 cm de profundidade. Com câmeras, painéis submersos e pequenas boias, a equipe registrou deslocamentos verticais da superfície inferiores a 0,5 mm.
Esse resultado descreve uma condição especialmente lisa, não uma profundidade universal necessária para que o salar reflita o céu. O limite de 0,69 mm citado no estudo corresponde ao critério de suavidade eletromagnética para o radar usado na análise, cujo comprimento de onda era de 2,2 cm; não é uma regra direta para prever como o reflexo será visto a olho nu. Essa distinção é importante: o trabalho mede a resposta do radar e a compara com observações de campo, mas não afirma que todos os setores tenham a mesma aparência óptica.
O espelho não cobre o salar de maneira uniforme nem dura o mesmo tempo em todos os setores
Os autores identificaram variações espaciais e temporais: a superfície não se comporta como um espelho contínuo durante toda a estação. Em 2023-2024, por exemplo, os sinais de maior suavidade surgiram primeiro em setores do noroeste e depois se espalharam para o leste; em fevereiro e março, o sinal cobriu grande parte do salar. Em temporadas mais secas, a resposta ficou mais localizada.
A evaporação encurta o período após as chuvas. O estudo cita uma taxa estimada de aproximadamente 2 mm por dia e descreve casos em que, sem novas precipitações importantes, uma superfície antes especular passou a apresentar condições quase especulares no registro de satélite seguinte. Como o Sentinel-3 volta a observar as mesmas trajetórias a cada 27 dias, esse intervalo não permite acompanhar as mudanças diárias nem determinar com precisão as condições de todos os pontos entre as passagens.
O calendário chuvoso é uma referência, não uma garantia: o estudo registra diferenças entre anos e setores, além de uma exceção fora da temporada, quando as chuvas de agosto de 2018 deixaram água temporariamente sobre o salar.









