
Em Kawah Ijen, na Indonésia, o perigo para quem extrai enxofre não se limita a carregar blocos por uma encosta íngreme: os trabalhadores também respiram gases vulcânicos na cratera. Um estudo publicado em 2024 mediu o dióxido de enxofre (SO₂) em seis pontos do trajeto dos trabalhadores e registrou concentrações de 3,14 a 18,24 mg/m³. Todas ficaram acima do valor de referência de 1,97 mg/m³ usado pelos autores na comparação com uma referência da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Esse valor não deve ser interpretado automaticamente como um limite ocupacional.
Seis pontos de amostragem registraram níveis de SO₂ acima do valor de referência
A pesquisa, intitulada Environmental health risk assessment and acute effects of sulfur dioxide (SO₂) inhalation exposure on traditional sulfur miners at Ijen Crater Volcano, Indonesia, foi assinada por Septian Hadi Susetyo, Azham Umar Abidin, Taiki Nagaya, Nobuyuki Kato e Yasuto Matsui. Os autores são vinculados à Kyoto University, ao Institut Teknologi Bandung e à Universitas Islam Indonesia. O artigo foi publicado na revista Toxicology Reports em outubro de 2024.
Para estimar a exposição, a equipe coletou amostras com impingers em seis pontos da rota de mineração. Também entrevistou 30 trabalhadores sobre suas atividades, características pessoais e sintomas durante o expediente. Com esses dados, fez uma avaliação de risco e comparou os sintomas relatados com os níveis medidos. As queixas mais frequentes foram irritação nos olhos e tosse; também foram mencionados dor de cabeça, falta de ar e irritação na pele. São sintomas relatados pelos participantes, não diagnósticos que, por si só, comprovem que o SO₂ os causou.
O índice de risco calculado pelos pesquisadores foi de 1,02 para a exposição em tempo real e 2,15 para a exposição de longo prazo. Nesse método, um índice igual ou superior a 1 indica um risco potencial que requer controle; isso não significa que todos os trabalhadores desenvolverão uma doença. A avaliação se baseia em uma amostra limitada e em queixas coletadas por meio de entrevistas. Por isso, descreve os participantes e os pontos medidos, mas não permite generalizar os resultados para todos os mineradores nem comprovar causalidade clínica.
Fumarolas liberam enxofre e expõem os mineradores ao gás
Na área de mineração da cratera, os trabalhadores conduzem parte dos gases e condensados das fumarolas por tubulações. Ao esfriar, o material se solidifica; depois, é quebrado e colocado em cestos para ser retirado à mão por terreno inclinado. Assim, o mesmo sistema vulcânico que permite obter enxofre mantém os trabalhadores perto de emissões ativas e faz com que a exposição ocorra junto com o esforço físico e o transporte manual.
O estudo ocupacional mediu especificamente o SO₂, e não todos os gases presentes na cratera. Outras pesquisas sobre Kawah Ijen descrevem emissões que incluem dióxido de carbono (CO₂) e sulfeto de hidrogênio (H₂S), além de SO₂. A composição e a concentração podem variar conforme a fonte e as condições do local. Em geral, o SO₂ irrita os olhos e as vias respiratórias, enquanto altas concentrações de gases vulcânicos podem causar falta de ar e outros efeitos agudos. Não se deve atribuir os resultados do estudo com os mineradores a esses outros gases: as concentrações deles não foram avaliadas nessa pesquisa.
A localização também importa: as medições de SO₂ variaram entre os pontos, e o estudo aponta que a distância das emissões e a direção do vento influenciam a concentração. Por isso, ver fumaça — ou não — não basta para determinar a quantidade de gás no ar; a avaliação apresentada se baseia em amostragens, e não em estimativas visuais.
PVMBG alertou sobre a descida à cratera e os gases
Em agosto de 2023, quando o nível de atividade de Ijen voltou ao normal, o centro indonésio de vulcanologia PVMBG informou que visitantes e mineradores não deveriam se aproximar da borda nem descer ao fundo da cratera e estabeleceu uma distância de 500 metros. Também recomendou proteger as vias respiratórias em caso de cheiro forte de enxofre. O uso de um pano úmido foi descrito como uma medida de emergência de curto prazo, não como solução permanente para uma atividade de mineração.
O estudo de Susetyo e coautores propõe controlar a exposição com medidas de engenharia e administrativas, além do uso de equipamentos de proteção individual. No entanto, as medições e entrevistas não constituem uma avaliação da eficácia de um programa específico de proteção. A conclusão central é mais restrita: nos seis pontos analisados, o SO₂ ficou acima do valor de referência usado pelos autores, enquanto os mineradores relataram sintomas compatíveis com exposição a uma substância irritante.









