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Como Roma conseguiu derrubar as montanhas de Las Médulas para extrair ouro?

A extração exigiu levar água das montanhas, uma obra que deixou marcas próprias para além das ravinas.

Como Roma conseguiu derrubar as montanhas de Las Médulas para extrair ouro?

Em Las Médulas, na região de El Bierzo, os paredões, ravinas e pináculos avermelhados são vestígios de uma mina romana a céu aberto. Durante cerca de dois séculos, das primeiras décadas do século I até o fim do II ou início do III d.C., a exploração alterou os depósitos auríferos e deixou uma rede de canais, áreas escavadas e acúmulos de material que ainda podem ser identificados no terreno.

A transformação se baseou na mineração hidráulica. A água não servia apenas para lavar o sedimento: no método conhecido como ruina montium, era usada para desagregar grandes massas de conglomerado e levar o material aurífero até as áreas de separação. O nome, associado à descrição de Plínio, o Velho, em sua História Natural, faz referência ao desmoronamento das montanhas.

A ruina montium combinava galerias, reservatórios e água sob pressão

O sistema exigia uma extensa obra hidráulica. A UNESCO descreve a captação de água em nascentes, da chuva e do degelo, seu armazenamento em reservatórios e o transporte por canais construídos com inclinação controlada. O Ministério da Cultura da Espanha calcula em 325 quilômetros a extensão dos canais escavados na rocha ligados à exploração.

Para derrubar o terreno, os mineiros escavavam uma rede de galerias no interior do depósito. Em seguida, liberavam a água armazenada para que ela percorresse esses condutos e atuasse sobre a massa de conglomerado. A pressão e a erosão ajudavam a desagregá-la; o fluxo arrastava os fragmentos para níveis mais baixos, onde o material era processado para separar o ouro.

A técnica respondia à geologia da jazida. O Instituto Geológico e Mineiro da Espanha (IGME) identifica em Las Médulas depósitos secundários do tipo placer: acúmulos de ouro formado originalmente em outros corpos rochosos e depois concentrado pela erosão. O ouro aparece misturado a seixos, areias e argilas. A ficha geológica do local indica que a formação Santalla era mais rica que a formação Las Médulas, onde o teor estimado era menor; por isso, as técnicas de exploração variavam conforme a localização e a concentração do metal.

As ravinas e os cones de estéril mostram por onde a mina avançou

O desmoronamento não era a etapa final. O sedimento deslocado precisava ser conduzido e lavado, enquanto os materiais mais grossos eram separados e o estéril, removido. O IGME identifica na paisagem três setores de escavação e áreas de acúmulo: as frentes de exploração aparecem como escarpas, pináculos e ravinas; os resíduos formam cones e depósitos em leque. Nas áreas onde as camadas auríferas estavam mais próximas da superfície, também foram usados sulcos convergentes e valas-canais.

Essas formas permitem identificar diferentes etapas do trabalho mineiro. A grande frente do circo de Las Valiñas está associada à ruina montium; em outros setores, as depressões e os canais refletem trabalhos adaptados à posição dos sedimentos e ao percurso da água. Parte do material acumulado chegou a obstruir um vale e contribuiu para a formação do lago de Carucedo, segundo a síntese geológica do IGME.

A produção de ouro é uma estimativa, não um número único

A dimensão da extração é estimada a partir do volume removido e do teor de ouro calculado nos depósitos, e não de um registro completo de todo o metal recuperado. A ficha do IGME calcula que foram transformados 542 hectares, removidos 93.550.000 metros cúbicos e que a produção teria chegado a cerca de 4.677,5 quilogramas de ouro.

Outra referência técnica está no artigo “Las Médulas (León), la formación de un paisaje cultural minero”, publicado em 1998 no Boletín Geológico y Minero por Luis Carlos Pérez García, Francisco Javier Sánchez-Palencia Ramos, Julio Fernández Manzano, Almudena Orejas e María Dolores Fernández-Posse. Os autores propuseram uma estimativa de 5.000 a 10.000 quilogramas, com base na hipótese — que classificaram como otimista — de um teor médio recuperável de 50 a 100 miligramas por metro cúbico. A diferença entre os cálculos reflete as hipóteses adotadas; os números são aproximações, não um balanço histórico verificável.

Após o abandono da mina, a erosão e a vegetação transformaram a área, mas não apagaram as marcas da exploração. Hoje, as paredes íngremes, os canais e os acúmulos de estéril preservam sinais de uma operação cuja cronologia, dimensão e traçado são reconstituídos com base em evidências arqueológicas e geológicas.