
Cerro Pabellón transforma o calor de um reservatório geotérmico em eletricidade em Ollagüe, na Região de Antofagasta, a 4.500 metros acima do nível do mar. A usina está em operação desde 2017 e utiliza um ciclo binário: o fluido quente do subsolo transfere energia para um circuito secundário que aciona uma turbina, enquanto o fluido geotérmico é devolvido ao reservatório. A instalação tem três unidades, e a capacidade informada varia conforme a fonte: a Enel informa 83 MW, enquanto um estudo técnico descreve 81 MWe para as unidades de 24, 24 e 33 MW.
O calor não vem da extração de magma nem da queima de combustível. Sob o campo geotérmico, a água quente circula por rochas vulcânicas fraturadas; o calor desse sistema é o recurso aproveitado pela usina. As evidências disponíveis situam o reservatório em uma estrutura tectônica chamada graben de Pabelloncito, formada entre falhas em uma região vulcânica dos Andes.
O ciclo binário separa o fluido geotérmico da turbina
Em uma usina de ciclo binário, o fluido extraído do reservatório transfere calor, em um trocador de calor, para um segundo circuito. Esse circuito aciona a turbina e o gerador; o fluido geotérmico não passa pela turbina. Em Cerro Pabellón, a operadora informa que 100% do fluido natural é reinjetado no reservatório após ceder calor.
A reinjeção também exige controle de temperatura. O trabalho First Geochemical Data from Cerro Pabellón Geothermal Project (Apacheta Region, Chile), de Geoffrey Giudetti e Lorenzo Tempesti, apresentado nos anais do Congresso Geotérmico Mundial da Associação Geotérmica Internacional de 2021, informa que o fluido era reinjetado a mais de 90 °C para evitar incrustações de sílica no sistema. O documento descreve seis poços produtores, com profundidades entre 452 e 2.900 metros, que abasteciam as duas primeiras unidades, com 48 MW brutos no total, antes da ampliação.
Para caracterizar o recurso, os autores analisaram amostras de água, vapor e gases não condensáveis coletadas durante testes de fluxo em seis poços, em campanhas realizadas entre 2010 e 2017. A coleta incluiu medições de temperatura, pH e alcalinidade em campo, além de análises químicas e isotópicas em laboratórios da Enel, do Centro de Excelência em Geotermia dos Andes e de instituições italianas. Os geotermômetros estimaram temperaturas de equilíbrio de 280 a 290 °C, acima dos máximos de 250 a 260 °C medidos nos poços. Essa diferença indica que pode haver temperaturas mais elevadas em profundidade; não significa que elas tenham sido medidas diretamente nesse ponto.
O calor está no subsolo, mesmo que a superfície não revele sua presença
Cerro Pabellón é descrito na pesquisa como um sistema “cego”: as manifestações visíveis na superfície não permitem identificar diretamente a extensão do reservatório profundo. O estudo geoquímico menciona fumarolas no cerro Apacheta, mas também reúne diferentes interpretações sobre a relação delas com o sistema explorado. Por isso, as temperaturas de equilíbrio calculadas com base na química do fluido devem ser entendidas como estimativas, e não como uma medição direta de todo o reservatório.
Outra pesquisa, publicada em 2023 na revista Geothermal Energy, analisou cascalhos de perfuração dos poços CP2A e CP5A por meio de difração de raios X e microscopia eletrônica com análise de energia dispersiva. O trabalho identificou minerais de alteração hidrotermal e associou certas zonas de fratura permeáveis à ascensão do fluido quente. O escopo é limitado: a pesquisa analisa dois poços e amostras obtidas entre 300 e 1.555 metros, não todo o campo geotérmico.
A altitude traz frio, vento e exigências operacionais
A localização impõe condições diferentes das de uma usina instalada em baixa altitude. Um registro da experiência operacional em Cerro Pabellón descreve jornadas com temperaturas de até −25 °C, ventos de 40 a 60 quilômetros por hora, neve e tempestades elétricas durante o inverno do altiplano. Essas condições exigem planos de emergência, comunicação e preparação para manter o acesso e responder às mudanças meteorológicas. A menor pressão atmosférica a 4.500 metros também exige que o trabalho em campo leve em conta a aclimatação dos funcionários; esses desafios operacionais não devem ser confundidos com uma limitação comprovada da geração de eletricidade.
O número da capacidade exige uma ressalva: a ficha atual da operadora informa 83 MW em operação, enquanto o artigo científico de 2023 detalha três unidades que totalizam 81 MWe. As fontes consultadas não explicam a diferença entre os dois números, por isso não cabe atribuí-la a uma causa específica. Nos dois registros, Cerro Pabellón aparece como uma usina geotérmica em operação no altiplano de Antofagasta.









