
Uma tuneladora para rocha dura desenvolvida por empresas chinesas escavou 422,4 metros de galeria entre 26 de agosto e 25 de setembro de 2026 na mina de cobre Chambishi, na Zâmbia. O equipamento, denominado China Nonferrous No. 2, operou em uma mina a aproximadamente 1.000 metros de profundidade, onde a dureza do terreno, as temperaturas elevadas e o desgaste das ferramentas dificultam a escavação contínua.
Os resultados, divulgados em 12 de outubro pela China Railway Construction Heavy Industry (CRCHI), incluem um avanço máximo de 42,2 metros em um dia e mais de 22,2 metros em um único turno de trabalho.
A máquina foi desenvolvida em conjunto pela CRCHI e pela China 15th Metallurgical Construction Group para as operações da NFC Africa Mining (NFCA), empresa ligada ao grupo estatal chinês China Nonferrous Metal Mining Group.
O projeto representa uma aplicação pioneira de tuneladoras especializadas na mineração de metais não ferrosos na África, onde grande parte da abertura de galerias subterrâneas ainda é feita por perfuração e desmonte com explosivos.
Uma máquina de 800 toneladas projetada para operar em condições extremas
A tuneladora usada em Chambishi tem dimensões normalmente associadas a grandes projetos de infraestrutura.
Ela tem cerca de 130 metros de comprimento, 5,63 metros de diâmetro de escavação e pesa aproximadamente 800 toneladas.
Sua principal particularidade, porém, não está apenas no tamanho, mas também na capacidade de avançar por galerias de mina com curvas, inclinações e restrições de espaço.
Os engenheiros adotaram um projeto modular, que permite adaptar os diferentes componentes da máquina ao traçado subterrâneo. O equipamento foi projetado para fazer curvas com raio horizontal mínimo de 50 metros e vencer inclinações de até 15 graus, tanto para cima quanto para baixo.
Essas características são importantes porque as galerias de mina nem sempre podem seguir trajetos retos. A geometria depende da localização dos corpos mineralizados, das condições geológicas e das necessidades de transporte e ventilação.
A máquina também conta com sistemas auxiliares de fixação, mecanismos de sustentação do terreno e tecnologias de previsão geológica para identificar condições potencialmente desfavoráveis durante a escavação.
O maior desafio estava na rocha e no calor subterrâneo
Um dos principais problemas identificados pelos desenvolvedores foi a presença de formações geológicas extremamente duras, incluindo áreas com grande quantidade de quartzito.
Esse tipo de rocha pode acelerar o desgaste dos discos e das ferramentas instalados na cabeça de corte da tuneladora.
Quando os componentes perdem eficiência, a escavação precisa ser interrompida para inspeções, manutenção ou substituição, o que afeta diretamente a disponibilidade operacional.
A esse problema somam-se as altas temperaturas em determinados trechos profundos de Chambishi.
Para lidar com essas dificuldades, a CRCHI ajustou os parâmetros de operação e diferentes sistemas auxiliares do equipamento.
Durante os testes, os especialistas otimizaram o mecanismo responsável pela remoção dos fragmentos de rocha gerados pela escavação. Também reforçaram os sistemas de ventilação e refrigeração para melhorar as condições de trabalho e reduzir a carga sobre os sistemas mecânicos.
A equipe técnica também estabeleceu procedimentos específicos para programar a substituição das ferramentas de corte, realizar a manutenção preventiva e coordenar os trabalhos de sustentação das galerias.
Essas intervenções permitiram manter a máquina em operação durante o período avaliado, embora o fabricante não tenha divulgado indicadores detalhados de disponibilidade mecânica, consumo de energia ou custos de escavação.
Avanço superou a referência mensal de 350 metros
O resultado ganha relevância quando comparado às expectativas de avanço divulgadas anteriormente pelos responsáveis pelo projeto.
Em agosto de 2026, a China 15th Metallurgical Construction Group havia informado uma previsão de avanço médio de aproximadamente 350 metros por mês para operações com essa tecnologia.
Os 422,4 metros escavados nos testes subsequentes superaram essa referência em 72,4 metros, o equivalente a aproximadamente 20,7%.
A comparação, no entanto, exige uma ressalva: trata-se de um resultado obtido em um período específico, comparado a uma previsão de média operacional, e não de um aumento sustentado de produtividade ao longo de vários meses.
Além disso, os 42,2 metros registrados no melhor dia não representam o ritmo diário habitual da tuneladora.
O desempenho pode variar bastante entre diferentes trechos da jazida devido a mudanças na resistência da rocha, à presença de falhas, à necessidade de sustentação e às paradas programadas.
O resultado também não deve ser apresentado como recorde mundial de escavação. A própria China 15th Metallurgical Construction Group já havia informado um avanço mensal de 430 metros com outra tuneladora de mineração usada na China, em condições operacionais diferentes.
Projeto prevê 9,7 quilômetros de desenvolvimento subterrâneo
A tuneladora integra o projeto associado ao corpo mineralizado sudeste de Chambishi, operação localizada na província de Copperbelt, um dos principais distritos produtores de cobre da África.
O desenvolvimento prevê aproximadamente 9,7 quilômetros de túneis, que permitirão implantar a infraestrutura subterrânea necessária ao acesso, ao transporte e à operação da mina.
A máquina iniciou os trabalhos em maio de 2026, após concluir as etapas de fabricação, transporte e instalação.
O projeto de mineração prevê capacidade de projeto de 3,3 milhões de toneladas de minério por ano e produção estimada de aproximadamente 60.000 toneladas anuais de cobre contido em concentrados.
Esses números correspondem aos parâmetros de projeto e não devem ser interpretados como produção adicional já alcançada graças à nova tuneladora.
O uso desse equipamento busca facilitar a construção das galerias necessárias para o desenvolvimento da operação, embora ainda não haja informações públicas suficientes para determinar quanto ele reduzirá os prazos ou custos em comparação com os métodos convencionais.
Essas máquinas poderiam substituir as detonações na mineração?
A principal diferença entre uma tuneladora para rocha dura e os sistemas convencionais está na forma de avançar.
Enquanto o método de perfuração e detonação exige ciclos sucessivos de perfuração, carregamento de explosivos, detonação, ventilação e remoção do material, uma TBM usa uma cabeça de corte giratória para fragmentar mecanicamente a rocha.
O sistema pode integrar escavação, remoção dos escombros e determinadas atividades de suporte, reduzindo a necessidade de realizar detonações a cada ciclo de avanço.
Essa tecnologia também permite obter galerias com perfis mais uniformes e reduzir a exposição direta dos trabalhadores a algumas tarefas de maior risco.
No entanto, as tuneladoras exigem investimentos significativos em fabricação, transporte, montagem e manutenção. Sua aplicação deve ser avaliada considerando a extensão dos túneis, a geometria do projeto e as características do maciço rochoso.
O resultado de Chambishi demonstra que uma máquina de grande porte pode manter avanços expressivos em condições de mineração profunda, mas ainda não comprova que essa tecnologia seja economicamente superior em qualquer operação subterrânea.
O próximo desafio será verificar se os resultados obtidos entre agosto e setembro podem ser mantidos por períodos mais longos, especialmente quando a máquina atravessar novas formações geológicas.
Para isso, serão determinantes o desgaste real das ferramentas, a capacidade de remoção do material escavado, o funcionamento dos sistemas de refrigeração e a estabilidade do terreno.
A experiência da Zâmbia constitui, assim, uma referência técnica para outros projetos de mineração subterrânea que buscam avaliar a escavação mecanizada de rocha dura em grandes profundidades.









