
A forte alta dos preços da gasolina e do diesel está mudando o mercado automotivo chileno. Nos primeiros nove meses de 2026, as vendas de veículos elétricos e híbridos plug-in chegaram ao recorde de 14.837 unidades, uma expansão de 144,6% na comparação anual, elevando a participação dessas tecnologias a 6,3% do mercado nacional. O avanço abre a possibilidade de que elas respondam por até 10% das vendas de veículos novos em 2027.
Os números, divulgados em 26 de outubro pela Associação Nacional Automotiva do Chile (ANAC), refletem uma mudança que ganhou força a partir de março, quando a alta dos combustíveis passou a influenciar mais as decisões de compra dos consumidores.
O crescimento é especialmente relevante porque ocorre enquanto o mercado automotivo tradicional apresenta um desempenho bem mais moderado.
Vendas de veículos elétricos crescem mais de 150% em setembro
Em setembro, foram comercializados 2.135 veículos elétricos e híbridos plug-in, alta de 152,1% em relação ao mesmo mês de 2025.
Em contraste, o mercado total de veículos novos leves e médios registrou 30.989 unidades vendidas em setembro, queda de 2,8% na comparação anual.
A diferença mostra que as tecnologias eletrificadas estão ampliando sua participação mesmo com o recuo das vendas gerais do setor.
O mesmo comportamento aparece nos números acumulados. De janeiro a setembro, o mercado automotivo chileno somou 237.181 veículos novos, alta de apenas 2,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Já os veículos plug-in cresceram em ritmo muito superior.
A participação dessas tecnologias passou de 2,8% no fechamento de 2025 para 6,3% no acumulado até setembro de 2026.
Veículos 100% elétricos lideram o crescimento
A divisão por tecnologia mostra que os veículos totalmente elétricos respondem por uma parcela importante do avanço.
Em setembro, foram vendidos 1.307 veículos elétricos a bateria, aumento de 183,5% na comparação anual. Nos primeiros nove meses do ano, foram 8.209 unidades, crescimento de 112%.
Os híbridos plug-in também apresentaram resultados expressivos.
De janeiro a setembro, foram comercializadas 5.665 unidades dessa categoria, além de 963 veículos elétricos de autonomia estendida com capacidade de conexão à rede elétrica.
Juntas, as duas tecnologias somaram 6.628 unidades, expansão de 202,1% na comparação anual.
O crescimento também alcançou os veículos que contam com sistemas elétricos, mas não precisam ser conectados a um carregador externo.
Os híbridos convencionais e os de autonomia estendida não plug-in somaram 11.586 unidades, enquanto os micro-híbridos totalizaram 19.443 veículos.
Considerando todas essas categorias, as vendas de veículos de emissão zero e baixa emissão chegaram a 45.866 unidades entre janeiro e setembro, o equivalente a aproximadamente 19,3% do mercado total.
Esse número difere da participação de 6,3%, que corresponde exclusivamente aos veículos plug-in, cujas baterias podem ser recarregadas por uma conexão externa.
Preço dos combustíveis muda decisões de compra
Um dos fatores por trás do crescimento é o aumento do custo de uso dos veículos movidos exclusivamente a gasolina ou diesel.
A ANAC estima que as variações nos preços dos combustíveis registradas desde março elevaram em cerca de 30%, em média, os gastos das famílias chilenas com esse consumo.
Nesse cenário, os compradores passaram a considerar com mais atenção o custo de operação dos veículos, além do preço inicial de aquisição.
Os carros elétricos substituem o consumo de combustíveis líquidos por eletricidade, enquanto os híbridos plug-in podem reduzir o uso de gasolina ao rodar com a energia armazenada nas baterias.
No entanto, a economia efetiva depende de fatores como quilometragem, custo da eletricidade, tarifas de recarga, estilo de condução e tecnologia do veículo.
A entidade do setor automotivo também aponta a maior disponibilidade de modelos e as melhores condições comerciais como fatores que favorecem a adoção.
Perspectivas para 2027 e o desafio de chegar a 10%
O crescimento acumulado em 2026 abriu um novo cenário para a indústria automotiva chilena.
A possibilidade de os veículos elétricos e híbridos plug-in chegarem a até 10% do mercado em 2027 representaria uma expansão significativa em relação ao nível atual.
No entanto, esse é um cenário possível, não um resultado garantido. Sua concretização dependerá da evolução dos preços, da oferta de modelos, do acesso ao financiamento, da infraestrutura de recarga e das condições econômicas.
A diferença também deve ser analisada em relação às metas de médio prazo.
A ANAC alerta que o Chile ainda está em uma etapa inicial de adoção de veículos plug-in e que taxas elevadas de crescimento não significam necessariamente que a eletromobilidade já tenha se disseminado.
A entidade considera que uma participação próxima de 20% representa o início de uma etapa de disseminação, enquanto uma fatia superior a 40% corresponde a um mercado mais consolidado.
Em suas projeções de agosto, a associação estimou que, mantidas as condições atuais, os veículos plug-in poderiam representar 15,7% das vendas em 2030, abaixo da meta de 20% prevista para esse horizonte.
Em um cenário com incentivos e mudanças regulatórias, a entidade calculou que a participação poderia chegar a 36,6% no mesmo ano.
Essas estimativas correspondem a cenários condicionais e não garantem o comportamento futuro do mercado.
Infraestrutura de recarga continua sendo um dos obstáculos
O aumento da frota de veículos elétricos também impõe novas exigências à infraestrutura necessária para seu uso.
Dados da Superintendência de Electricidad y Combustibles (SEC), incluídos no relatório da ANAC, mostram que, entre janeiro e setembro de 2026, foram adicionados 209 pontos públicos de recarga, 52,4% menos do que no mesmo período de 2025.
Em 15 de setembro, a plataforma de interoperabilidade registrava 1.853 pontos públicos conectados, sendo 1.155 de recarga lenta, 496 de recarga rápida e 202 de recarga ultrarrápida.
A expansão dessa infraestrutura é importante para facilitar deslocamentos de longa distância e reduzir as dificuldades enfrentadas por usuários sem acesso à recarga residencial.
O desafio para 2027 será manter o crescimento comercial dos veículos plug-in em um cenário de combustíveis ainda caros, mas no qual a disponibilidade de infraestrutura, o financiamento e as políticas de incentivo continuarão influenciando o ritmo de adoção.
O recorde de 2026 confirma que os veículos eletrificados vêm ganhando espaço no Chile. Alcançar uma participação de dois dígitos no próximo ano dependerá da continuidade desse crescimento e de sua conversão em uma adesão mais ampla dos consumidores.









