
A montadora chinesa SAIC Motor, controladora da marca MG, deu mais um passo no desenvolvimento de baterias avançadas para veículos elétricos ao colocar em operação a primeira fase de uma unidade industrial em Kunshan, na província de Jiangsu, China. Inaugurada em 21 de outubro de 2026 em parceria com a Qingtao Energy, a instalação faz parte de um projeto que prevê investimento total de 8.000 milhões de yuans, equivalente a mais de US$1.000 milhões.
A nova unidade vai fabricar baterias de nova geração para os veículos elétricos do grupo. A primeira fase prevê capacidade nominal de 10 gigawatts-hora (GWh) por ano, embora ainda não tenham sido divulgados dados que permitam saber quanto está sendo produzido de fato.
O projeto reflete a aposta da indústria automobilística chinesa em tecnologias que buscam melhorar a autonomia, a segurança e o desempenho das baterias, especialmente em baixas temperaturas.
Unidade industrial de 128.000 metros quadrados
A fábrica está sendo construída pela Qingtao Power Technology Development, uma joint venture ligada à Huayu Automotive Systems, subsidiária de componentes da SAIC Motor, e à Qingtao Energy, empresa especializada em baterias de lítio de estado sólido e materiais avançados.
A unidade fica em Kunshan, um dos polos industriais da província de Jiangsu, perto de Xangai. A área construída projetada é de 128.000 metros quadrados, segundo informações divulgadas pelo governo local.
O projeto prevê edifícios industriais que poderão abrigar equipamentos de fabricação de alta precisão, instalações especializadas e espaços voltados ao desenvolvimento tecnológico.
Entre as características está uma estrutura individual projetada com até 56.000 metros quadrados e setores com até 23,55 metros de altura, dimensões que facilitam a instalação de máquinas industriais de grande porte.
A construção dessa estrutura havia sido associada a um investimento aproximado de 850 milhões de yuans, valor referente às instalações físicas e distinto dos 8.000 milhões de yuans previstos para o projeto industrial completo.
A primeira fase recebeu aprovação ambiental em junho de 2026 e começou a operar oficialmente em outubro.
O modelo industrial prevê desenvolver e fabricar baterias em Kunshan, enquanto a integração aos veículos ocorre na rede de produção da SAIC em Xangai.
A tecnologia já chegou aos veículos MG, mas há uma diferença importante
Embora a unidade seja apresentada como uma fábrica de baterias de estado sólido, há uma distinção tecnológica fundamental.
As baterias convencionais de íons de lítio usam eletrólitos líquidos, que permitem o transporte de íons entre os eletrodos durante os processos de carga e descarga.
As tecnologias de estado sólido buscam substituir esse componente por materiais sólidos, com o objetivo de melhorar aspectos como segurança, densidade energética e funcionamento.
No entanto, uma bateria semissólida não é o mesmo que uma bateria totalmente sólida.
As primeiras combinam materiais sólidos com uma proporção de eletrólito líquido, enquanto as totalmente sólidas dispensam esse componente.
A SAIC e a Qingtao já conseguiram equipar veículos comerciais com baterias semissólidas. Um exemplo é o MG4 Anxin Edition, cujas entregas começaram na China em dezembro de 2025.
O carro usa uma bateria de aproximadamente 53,95 quilowatts-hora (kWh) e declara autonomia de até 530 quilômetros pelo ciclo chinês CLTC, um procedimento de homologação que não deve ser comparado diretamente às medições europeias do WLTP.
A tecnologia usa uma composição de eletrólito majoritariamente sólida, mas ainda mantém uma fração líquida.
Até o momento, não foi divulgado que proporção da capacidade da nova fábrica será destinada a baterias semissólidas e quanto será voltado às tecnologias totalmente sólidas.
MG prepara expansão das baterias semissólidas para a Europa
O desenvolvimento industrial também tem impacto na estratégia comercial da MG fora da China.
Em março de 2026, a empresa apresentou sua tecnologia SolidCore Battery e confirmou planos de introduzir baterias semissólidas em carros destinados ao mercado europeu até o fim do ano.
A marca apontou o MG4 Urban como um dos modelos que receberão essa solução.
Entre as melhorias anunciadas está um funcionamento mais eficiente em baixas temperaturas, especialmente durante a recarga e o fornecimento de energia.
A MG afirma que sua tecnologia pode aumentar em até 15% a velocidade de recarga em baixas temperaturas em comparação com determinadas baterias convencionais usadas como referência. Esse resultado, porém, corresponde às condições de comparação informadas pela fabricante e não representa uma vantagem universal para qualquer veículo ou situação de uso.
A empresa também desenvolve baterias totalmente sólidas para futuras gerações de carros elétricos.
Essas tecnologias podem proporcionar maior autonomia, mas seus benefícios ainda precisam ser comprovados de forma consistente na produção industrial em larga escala e em condições reais de uso.
O desafio de produzir baterias sólidas em larga escala
A inauguração da unidade de Kunshan ocorre em um momento de intensa competição tecnológica entre fabricantes de baterias do mundo todo.
Empresas da China, do Japão, da Coreia do Sul e dos Estados Unidos trabalham em soluções com eletrólito sólido para superar algumas limitações das atuais baterias de íons de lítio.
No entanto, transformar protótipos funcionais em produtos fabricados em massa continua sendo um desafio.
A Agência Internacional de Energia (AIE), em seu relatório Global EV Outlook 2026, alerta que as vantagens esperadas das baterias totalmente sólidas ainda precisam ser validadas em aplicações comerciais de grande escala.
Entre os principais obstáculos estão a complexidade de fabricação, os custos industriais e as exigências mecânicas necessárias para garantir o funcionamento estável de determinadas tecnologias.
Fabricantes como Toyota e BYD mantêm programas de desenvolvimento com metas comerciais para o fim desta década, enquanto uma expansão mais ampla da produção de baterias totalmente sólidas está prevista para os próximos anos.
Nesse cenário, a capacidade de 10 GWh de Kunshan representa um avanço na infraestrutura de fabricação, mas não significa que a planta já esteja produzindo esse volume nem que todos os problemas associados à produção em massa de baterias totalmente sólidas tenham sido resolvidos.
O que esse avanço significa para o mercado de lítio
A expansão dessa tecnologia também é relevante para países produtores de minerais estratégicos, entre eles o Chile.
As baterias desenvolvidas pela Qingtao fazem parte da indústria de armazenamento eletroquímico à base de lítio. Portanto, a substituição do eletrólito líquido por um sólido não significa necessariamente que esse mineral deixará de ser usado na fabricação.
O que pode mudar é a composição dos materiais utilizados, o projeto das células e a quantidade de determinados insumos necessários para armazenar energia.
Para a indústria de mineração, a evolução dessas tecnologias é relevante porque influencia os futuros requisitos de processamento, pureza e fornecimento de materiais para baterias.
No entanto, a inauguração da fábrica chinesa, por si só, não permite determinar um aumento específico na demanda por lítio chileno. Também não foram identificados contratos de fornecimento vinculados à unidade que permitam estabelecer a origem das matérias-primas.
A relevância do projeto está em outro aspecto: ele demonstra que as montadoras estão destinando grandes recursos à preparação das instalações necessárias para produzir novas gerações de baterias.
O próximo desafio da SAIC e da Qingtao será demonstrar que a capacidade industrial instalada pode se traduzir em produção contínua, custos competitivos e baterias capazes de manter o desempenho durante toda a vida útil dos veículos.
Esse resultado determinará até que ponto a nova fábrica poderá contribuir para ampliar o uso de uma tecnologia que ainda se encontra em diferentes estágios de desenvolvimento e comercialização.






