
A mineração chilena se tornou um campo de testes para o desenvolvimento de ônibus elétricos capazes de operar em condições altamente exigentes. Declives acentuados, poeira, baixas temperaturas e jornadas intensivas no transporte de trabalhadores impulsionaram soluções de engenharia nacional, aperfeiçoadas com base no desempenho em campo.
Um dos principais exemplos é Reborn Electric Motors, fabricante de ônibus elétricos com unidade em Rancagua. Segundo informações comerciais divulgadas pela companhia em 2026, seus veículos na Divisão El Teniente, da Codelco, já percorreram mais de 10 milhões de quilômetros, com uma frota que a empresa estima em 134 unidades.
Essa experiência permite avaliar o desempenho dos sistemas elétricos em operações reais, nas quais autonomia, segurança e continuidade do serviço são requisitos fundamentais.
A mineração como campo de testes tecnológicos
As condições das operações de mineração chilenas apresentam desafios diferentes dos do transporte urbano. A circulação por estradas de montanha, as variações de temperatura, os declives e a exposição constante à poeira exigem adaptações em componentes como baterias, motores, sistemas de refrigeração, suspensões e freios.
Em El Teniente, o processo começou com testes de veículos convertidos de diesel para elétricos e, posteriormente, avançou para ônibus novos fabricados no Chile.
Em setembro de 2024, a Codelco informou que 104 ônibus elétricos da Reborn transportavam trabalhadores da superfície até o interior da mina. Na ocasião, a estatal relatou uma redução de 2.800 toneladas de dióxido de carbono por ano e uma economia anual de 1,1 milhão de litros de combustível.
A operação também permitiu avaliar aspectos de confiabilidade. Na ocasião, José Miguel Carvajal, superintendente de Mobilização e Transporte de El Teniente, reconheceu que a incorporação dos veículos exigiu um período inicial de aprendizado.
“Tivemos uma curva de aprendizado importante durante os primeiros seis meses de operação e, até o momento, os veículos têm apresentado bom desempenho em termos de autonomia e confiabilidade”, afirmou o executivo no balanço publicado pela Codelco em 2024.
Telemetria: informações para aperfeiçoar os veículos
Outro componente do desenvolvimento tecnológico é a telemetria, que permite registrar informações sobre o funcionamento dos ônibus e analisar seu desempenho durante a operação.
A Reborn incorporou esses sistemas à sua oferta tecnológica. Na ficha técnica do modelo Queltehue, a companhia apresenta uma solução opcional que transmite dados operacionais para a nuvem e pode alimentar ferramentas de manutenção preditiva.
O monitoramento permite obter informações sobre as condições das baterias e outras variáveis do veículo, dados úteis para detectar desvios, avaliar o desempenho energético e orientar os trabalhos de manutenção.
Em trajetos com declives acentuados, também ganha importância a frenagem regenerativa, tecnologia que recupera parte da energia durante a desaceleração e a transforma em eletricidade para as baterias.
A possibilidade de estudar esses sistemas em condições reais é uma vantagem para as equipes de engenharia, embora a quilometragem acumulada, por si só, não permita determinar a vida útil das baterias nem os custos operacionais em comparação com os veículos a diesel.
De Rancagua aos mercados internacionais
A experiência na mineração também contribuiu para desenvolver capacidades de fabricação e integração tecnológica no Chile.
A Reborn projeta componentes de integração mecânica e elétrica, além de trabalhar com software, hardware e serviços de monitoramento. Sua produção inclui ônibus para o transporte industrial e de mineração, com configurações adaptadas a diferentes requisitos operacionais.
Em outubro de 2025, a companhia oficializou a entrada da fabricante brasileira Marcopolo, que adquiriu 40% da empresa, participação anteriormente pertencente ao Grupo Link. A associação tem entre seus objetivos ampliar a comercialização internacional de tecnologia desenvolvida no Chile.
A empresa já havia anunciado a exportação de um ônibus elétrico para o Brasil em 2024, enquanto seus planos de expansão incluem novas aplicações industriais e operações de mineração em outros países da América Latina.
O desafio agora será levar a experiência acumulada nas operações chilenas a contratos de maior escala, respaldados por indicadores verificáveis de disponibilidade, eficiência energética, manutenção e desempenho das baterias. Essas variáveis serão determinantes para avaliar a competitividade dos ônibus desenvolvidos no país diante das alternativas internacionais.






