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A febre da prata de Caracoles que transformou o deserto em uma disputa de fronteira

A expansão da jazida atraiu interesses para uma região onde a fronteira entre Chile e Bolívia ainda era motivo de tensão.

A febre da prata de Caracoles que transformou o deserto em uma disputa de fronteira

A descoberta de prata em Caracoles, em março de 1870, transformou uma área remota do deserto do Atacama em um distrito minerador de grande produção e trouxe à tona uma questão ainda em discussão entre Chile e Bolívia: como aplicar os acordos fronteiriços e qual era o alcance do regime de divisão de receitas na região. A jazida estava então sob jurisdição boliviana; sua riqueza e a chegada de investidores chilenos acirraram as divergências, mas, por si só, não explicam os acontecimentos que levaram à Guerra do Pacífico.

A historiadora Carmen Gloria Bravo Quezada reconstruiu o auge e a crise de Caracoles em La flor del desierto. El mineral de Caracoles y su impacto en la economía chilena, publicado em 2000 pelo Centro de Investigaciones Diego Barros Arana e pela LOM. O estudo acompanha o período de 1870 a 1878 e examina a produção, a organização das operações de mineração, os capitais e as condições do povoado. Os dados de produção, compilados a partir de registros e estudos históricos anteriores, mostram por que a jazida ganhou importância econômica em poucos anos.

Caracoles produziu mais prata que o Chile entre 1872 e 1874

A jazida foi descoberta por uma equipe de prospectores enviada pelo explorador José Díaz Gana. Uma pesquisa arqueológica publicada em 2010 por Francisco García-Albarido, Rodrigo Lorca e Francisco Rivera situa a descoberta de prata nativa na quebrada La Deseada em 24 de março de 1870. Para estudar o local, os autores combinaram documentos históricos e relatos com prospecções, registro da arquitetura e evidências de superfície; nos depósitos de lixo, usaram unidades de observação de 3 por 3 metros, separadas por intervalos de 20 metros. O trabalho apresenta uma caracterização material e espacial do antigo distrito, e não uma estimativa de reservas ou do teor do minério.

Os dados de produção dão a dimensão do auge: a série reconstituída por Bravo Quezada registra 195.933 quilos de prata em 1873, ante 109.689 quilos no conjunto das minas chilenas naquele ano. Em 1872 e 1874, Caracoles também superou a produção total do Chile. O pico não durou: a produção caiu para 53.000 quilos em 1878. Os dados do distrito foram convertidos de marcos para quilos e elaborados com base em registros citados pela autora. Por isso, devem ser entendidos como uma série histórica compilada, e não como um balanço moderno da produção.

A bonança atraiu mineradores e capitais, em sua maioria chilenos, para um território boliviano com dificuldades de abastecimento e transporte. Segundo a reconstrução de Bravo Quezada, o povoado chegou a ter cerca de 10.000 habitantes. O artigo demográfico de José Antonio González Pizarro, pesquisador da Universidad Católica del Norte, publicado em 2023 na Revista de Historia, analisou a migração chilena para Antofagasta e Caracoles entre 1870 e 1880 com base em registros municipais e paroquiais do período boliviano e em despachos consulares chilenos. Esse método permite acompanhar as mudanças populacionais a partir dos registros preservados, mas não equivale a um censo completo do distrito.

Os tratados de 1866 e 1874 levaram a disputa para o campo dos impostos

O acordo firmado entre Chile e Bolívia em 1866 definiu o paralelo 24 como limite, mas estabeleceu que as receitas de guano e minerais obtidas entre os paralelos 23 e 25 seriam divididas igualmente. A localização de Caracoles dificultou a aplicação dessa fórmula: um despacho diplomático dos Estados Unidos, de janeiro de 1872, registrou que a Bolívia considerava a jazida ao norte do paralelo 23, enquanto a zona compartilhada se estendia ao sul dessa linha. O documento também registrou o temor do governo boliviano de que o Chile tentasse se apropriar da jazida — uma percepção diplomática da época, não uma prova de que essa fosse a política chilena.

O tratado assinado em 1874 manteve o paralelo 24 como fronteira e encerrou a divisão das receitas da região. Em contrapartida, a Bolívia não aumentaria, durante 25 anos, os impostos aplicáveis a pessoas, capitais e indústrias chilenas no território entre os paralelos 23 e 24. A Biblioteca Nacional de Chile resume que o acordo buscava proteger os investimentos chilenos em Caracoles, mas não impediu a queda da produção, também associada à tecnologia limitada, ao transporte caro, ao esgotamento de minérios de alto teor e à especulação financeira.

Caracoles foi um fator relevante nas tensões por concentrar riqueza mineral, capital chileno e uma disputa concreta sobre jurisdição e impostos. Essa pressão não deve ser confundida com uma causa única da guerra: o estudo de Bravo Quezada delimita sua análise até 1878, antes da ocupação chilena de Antofagasta e da própria jazida, em 1879. A essa altura, além disso, a produção do distrito já havia caído em relação ao pico de 1873.