Energia

Usinas termelétricas reduzem geração pela metade enquanto Chile chega a 84% de energia renovável

O forte avanço da hidreletricidade transformou a geração de energia em setembro de 2026. Os custos marginais registraram quedas expressivas em diferentes regiões do país, embora persistam diferenças regionais.

Usinas termelétricas reduzem geração pela metade enquanto Chile chega a 84% de energia renovável

O Chile registrou uma mudança significativa na composição de sua geração de energia em setembro de 2026. As fontes hidráulica, solar, eólica e geotérmica responderam, juntas, por 83,6% da eletricidade produzida no Sistema Elétrico Nacional (SEN), enquanto a geração termelétrica caiu praticamente pela metade em relação ao mesmo mês de 2025.

Os números constam do relatório mensal publicado em 27 de outubro pelo Coordenador Elétrico Nacional, órgão responsável por coordenar a operação do sistema, que se estende de Arica e Parinacota à ilha Grande de Chiloé.

Em setembro, a produção total de eletricidade chegou a 6.788,9 gigawatts-hora (GWh), alta de apenas 0,4% em comparação com os 6.762,2 GWh registrados um ano antes.

A variação revela um dos aspectos mais relevantes do período: o volume total de geração praticamente não mudou, mas as tecnologias utilizadas para produzir eletricidade, sim.

Hidreletricidade lidera a maior mudança na matriz chilena

A principal mudança ocorreu nas usinas hidrelétricas, cuja geração passou de 1.733 GWh em setembro de 2025 para 2.668,1 GWh no mesmo mês de 2026.

O aumento equivale a aproximadamente 54% na comparação anual, e a participação da fonte na matriz elétrica subiu de 25,6% para 39,3%.

Em termos absolutos, as hidrelétricas produziram 935,1 GWh a mais e se tornaram a principal fonte de eletricidade do sistema no período analisado.

A geração das usinas com reservatório foi de 1.758,7 GWh, o equivalente a 25,9% da produção nacional. Já as usinas a fio d’água, que aproveitam o fluxo dos rios, contribuíram com outros 909,5 GWh, ou 13,4%.

O aumento da contribuição hidrelétrica foi decisivo para mudar a composição da geração e reduzir a participação de outras tecnologias.

No entanto, o resultado de um único mês não garante que essa distribuição se mantenha ao longo do ano. A geração hidrelétrica depende de fatores como precipitação, vazões disponíveis e volume de água armazenado nos reservatórios.

O Coordenador também apontou probabilidade de excedência hidrológica de 61,8% para o ano hidrológico entre abril de 2025 e março de 2026, o que corresponde à classificação de ano seco.

Usinas termelétricas reduzem a geração em mais de 1.100 GWh

Enquanto a hidreletricidade avançou significativamente, as usinas termelétricas tiveram uma queda de magnitude semelhante, mas em sentido contrário.

A geração caiu de 2.254,8 GWh em setembro de 2025 para 1.115 GWh em setembro de 2026.

Isso representa uma redução de aproximadamente 50,5% em um ano, equivalente a 1.139,8 GWh a menos.

Com isso, a participação da geração termelétrica recuou de 33,3% para 16,4% do total.

Nessa categoria, as usinas a carvão geraram 557,9 GWh, o equivalente a 8,2% do sistema, enquanto as instalações a gás natural produziram 325,3 GWh, ou 4,8%.

O restante da geração termelétrica foi distribuído entre unidades de cogeração e usinas que utilizam biomassa, biogás, diesel e outros combustíveis.

Embora os números indiquem menor uso da geração termelétrica em setembro, isso não significa que essas usinas tenham sido definitivamente retiradas de operação.

Sua participação continua condicionada às condições de abastecimento, à disponibilidade de outras fontes e às necessidades de segurança do sistema elétrico.

Energia solar já representa mais de um terço da capacidade instalada

A energia solar manteve posição de destaque no sistema chileno, com geração de 1.926,7 GWh em setembro.

O volume correspondeu a 28,4% de toda a eletricidade produzida, ante 26,1% registrados em setembro de 2025.

A geração eólica também cresceu, passando de 1.001,6 para 1.059,4 GWh e alcançando participação de 15,6%.

Juntas, as duas fontes produziram 2.986,1 GWh no mês.

No fim de setembro, a capacidade instalada total do SEN chegou a 41.314,9 megawatts (MW), incluindo 1.625 MW de projetos em período de entrada em operação.

A distribuição por tecnologia mostra uma diferença importante entre a infraestrutura disponível e a eletricidade efetivamente gerada.

As usinas solares concentravam 34,1% da potência instalada, com 14.081,15 MW. Em seguida vinham as termelétricas, com 30,6%, e as hidrelétricas, com 18,2%.

As usinas eólicas respondiam por outros 16,9%.

Isso significa que, embora a energia solar lidere em capacidade instalada, em setembro foi a hidreletricidade que gerou mais eletricidade.

Custos marginais caem até 66,7%, mas Puerto Montt registra alta

A nova composição da geração coincidiu com uma queda expressiva dos custos marginais de eletricidade em diferentes regiões do país.

O custo marginal representa o valor para produzir uma unidade adicional de eletricidade em determinado ponto do sistema e é uma referência importante nas operações do mercado elétrico.

Em Charrúa, na Região de Biobío, o indicador caiu de 39 dólares por megawatt-hora (MWh) em setembro de 2025 para 13 dólares por MWh em setembro de 2026.

A redução chegou a 66,7% na comparação anual, a maior queda entre as barras de referência incluídas no relatório.

Em Quillota, o custo marginal passou de 40,2 para 23,5 dólares por MWh, enquanto em Alto Jahuel recuou de 40,5 para 23,6 dólares por MWh. Nos dois pontos, a queda foi de 41,7%.

No norte, Crucero registrou queda de 35,7%, para 23,3 dólares por MWh, enquanto Pan de Azúcar recuou 34,8%, para 23,2 dólares por MWh.

No entanto, o comportamento não foi uniforme.

Puerto Montt registrou alta de 31,7%, passando de 35 para 46 dólares por MWh.

As diferenças mostram que o desempenho do mercado elétrico também é condicionado pelas características regionais de geração, transmissão e operação.

Além disso, a redução do custo marginal não implica necessariamente uma queda imediata nas contas de luz de residências e empresas, cujos preços dependem de contratos, tarifas reguladas e outros componentes.

O desafio que permanece: armazenar a eletricidade renovável produzida pelo Chile

O avanço das fontes renováveis também impõe exigências à infraestrutura elétrica, especialmente nas áreas de transmissão e armazenamento.

O boletim estatístico de setembro da Associação Chilena de Energias Renováveis e Armazenamento (ACERA) identificou 3.125 MW de sistemas de baterias em operação, com capacidade de armazenamento energético de 13.555 megawatts-hora (MWh).

Além disso, contabilizou 5.130 MW de capacidade de armazenamento em construção, equivalentes a 22.123 MWh de capacidade energética projetada.

Esses sistemas permitem armazenar eletricidade para uso posterior, contribuindo para administrar as diferenças entre os horários de geração renovável e os períodos de maior consumo.

Ainda assim, a expansão das tecnologias limpas continua enfrentando restrições.

Entre janeiro e setembro de 2026, os cortes na geração solar e eólica somaram 3.546 GWh, segundo as estatísticas da ACERA.

Embora esse volume represente uma queda de 4,6% em relação ao mesmo período de 2025, ainda corresponde a uma quantidade considerável de eletricidade renovável que não pôde ser integrada ao sistema.

Os cortes ocorrem quando as usinas precisam reduzir a produção devido a limitações de transmissão, restrições operacionais ou outras condições que impedem o aproveitamento de toda a energia disponível.

Por isso, a expansão das baterias e das redes de transmissão será importante para ampliar o aproveitamento da eletricidade renovável que o Chile tem condições de gerar.

O balanço de setembro confirma que o sistema chileno pode operar durante um mês com participação de fontes renováveis próxima de 84%. O desafio é manter uma proporção elevada dessas fontes sob diferentes condições hidrológicas e de demanda, garantindo a segurança do fornecimento e aproveitando melhor a infraestrutura disponível.