
Duas gigantescas escavadeiras de mineração Liebherr R996B, com peso operacional superior a 670 toneladas, são o centro de uma comparação técnica em uma mina de carvão de Queensland, na Austrália. As máquinas utilizam sistemas de esteiras de diferentes fabricantes, e os dados de desgaste coletados pela Bradken indicam que sua solução pode alcançar uma vida útil 55,6% superior à de uma alternativa de menor custo.
O caso foi documentado pela Bradken em setembro de 2025 e voltou a ganhar destaque após sua divulgação internacional em 4 de novembro de 2026. A comparação coloca frente a frente duas estratégias comuns na aquisição de componentes para mineração: escolher um sistema levando em conta principalmente o preço inicial ou priorizar uma solução projetada para ampliar os intervalos entre substituições.
A diferença estimada é expressiva. O sistema da Bradken tem vida útil projetada de 26.381 horas, enquanto o material rodante concorrente chegaria a 16.952 horas. Isso representa 9.429 horas adicionais de serviço potencial, embora a própria empresa alerte que os números dependem da evolução do desgaste durante a operação.
Duas escavadeiras idênticas, mas com componentes diferentes
As protagonistas são duas escavadeiras hidráulicas Liebherr R996B, máquinas de grande porte usadas na mineração a céu aberto para remover material e carregar caminhões de alta capacidade.
Segundo as especificações da fabricante alemã, o modelo tem peso operacional aproximado entre 672 e 676 toneladas, dependendo da configuração. A potência instalada chega a 2.240 quilowatts, equivalentes a cerca de 3.000 cavalos de força, e as caçambas podem ter capacidade nominal entre 34 e 36 metros cúbicos, conforme o equipamento.
Na operação australiana, as duas escavadeiras pertencem a proprietários diferentes. Uma utiliza componentes de material rodante fornecidos pela Bradken; a outra trabalha com uma solução de um concorrente, que tem preço de aquisição mais baixo.
Os sistemas foram instalados com poucos meses de diferença, o que permitiu acompanhar e comparar seu desempenho em condições operacionais que a Bradken descreve como equivalentes.
O objetivo é observar o desgaste das esteiras e dos componentes associados durante a operação de mineração e usar essas informações para avaliar futuros investimentos em sistemas de material rodante.
A empresa não divulga o nome da mina, os proprietários das duas escavadeiras nem o fabricante do sistema concorrente. Também não informa os preços de aquisição de cada alternativa.
Diferença supera 9.400 horas de vida útil projetada
O resultado mais expressivo aparece nas estimativas de desgaste apresentadas pela Bradken.
A avaliação prevê vida útil de 26.381 horas para o sistema da empresa, ante 16.952 horas para a alternativa concorrente. A diferença corresponde a aproximadamente 55,6% a mais em relação à segunda solução.
No entanto, esses números não representam horas de operação já cumpridas pelos dois sistemas até a substituição definitiva.
São estimativas de quando os componentes atingiriam o limite de desgaste, feitas com base no acompanhamento durante a operação.
Essa distinção é fundamental porque a projeção pressupõe que as taxas de desgaste observadas se manterão relativamente constantes pelo restante da vida útil.
A Bradken reconhece que isso nem sempre acontece. Entre os fatores que podem alterar a evolução do desgaste, cita o desprendimento de material das superfícies endurecidas, a deformação plástica e mudanças no tempo que as máquinas passam se deslocando.
Portanto, embora os resultados favoreçam inicialmente o sistema da empresa, ainda não comprovam de forma definitiva que as esteiras chegarão às horas estimadas.
O que diferencia o sistema desenvolvido pela Bradken?
O sistema de material rodante de uma escavadeira desse porte está sujeito a grandes cargas mecânicas. Precisa suportar centenas de toneladas, distribuir o peso pelo terreno e permitir que a máquina se desloque em superfícies irregulares e abrasivas, além de operar em condições exigentes.
A estrutura inclui elos, sapatas de esteira, roletes e rodas motrizes, entre outros componentes. O desgaste dessas peças pode exigir manutenção e, eventualmente, a substituição de componentes de alto custo.
A Bradken afirma que sua solução para a Liebherr R996B incorpora melhorias metalúrgicas e alterações de projeto desenvolvidas com base em sua experiência como fornecedora de componentes para escavadeiras de mineração.
A empresa mantém uma parceria de longa data com a Liebherr e, por mais de uma década, foi fornecedora preferencial de sapatas de esteira e rodas motrizes para os modelos R996B e R9800.
Em novembro de 2021, a Bradken apresentou uma nova linha de componentes de material rodante para a R996B, voltada diretamente às empresas de mineração.
Entre os desenvolvimentos técnicos mencionados na ocasião estavam alterações para aumentar a dureza do núcleo das sapatas e ampliar a profundidade do endurecimento superficial por indução.
A empresa também encomendou ensaios destrutivos independentes em uma de suas sapatas. A avaliação apontou melhorias metalúrgicas em relação aos componentes analisados anteriormente, embora os resultados de laboratório não comprovem a vida útil total durante a operação em uma mina.
O verdadeiro desafio está no custo de manter a escavadeira em operação
A comparação é especialmente relevante porque o preço de compra de uma esteira representa apenas uma parte do custo de manter uma escavadeira de mineração em funcionamento.
Quando um sistema de material rodante chega ao limite de desgaste, pode ser necessário parar a máquina, retirar peças de grandes dimensões, instalar novos componentes e fazer inspeções antes de colocá-la novamente em operação.
Em uma escavadeira usada no carregamento de material, essas intervenções podem afetar a disponibilidade do equipamento e exigir coordenação com os programas de manutenção da operação.
Uma solução que de fato dure mais horas pode permitir intervalos maiores entre substituições e reduzir a frequência de determinadas intervenções.
No entanto, para determinar qual alternativa é mais vantajosa do ponto de vista econômico, também é preciso considerar o preço inicial, os custos de instalação, a mão de obra, a frequência da manutenção e as paradas registradas durante o uso.
A Bradken não divulga, neste caso, números verificáveis sobre a economia efetivamente obtida, portanto não é possível determinar quanto a operação australiana teria economizado ao usar seu sistema.
Também não há informações suficientes para determinar se as diferenças observadas se mantêm em diferentes condições de deslocamento, tipos de material ou práticas operacionais.
Uma comparação que ainda aguarda resultados definitivos
O estudo mostra como operadores de mineração podem usar medições de desgaste para avaliar componentes cuja importância costuma ficar em segundo plano diante da capacidade de carga, da potência ou do porte das máquinas.
Diferentemente de um teste realizado exclusivamente em laboratório, esta comparação envolve equipamentos que trabalham em uma mina de carvão em operação. Isso permite observar o desempenho dos componentes em condições reais de uso industrial.
No entanto, o acompanhamento envolve duas escavadeiras, e os resultados são apresentados por um dos fabricantes envolvidos. O documento disponível não inclui validação independente do resultado final de vida útil nem uma comparação completa dos custos acumulados.
A publicação original do estudo, datada de 10 de setembro de 2025, também não informa quando o acompanhamento será concluído ou quando serão divulgados os resultados definitivos.
Por enquanto, o que está comprovado é que duas escavadeiras Liebherr R996B operam com soluções de material rodante diferentes e que as medições usadas pela Bradken permitem projetar uma vantagem superior a 50% para seus componentes.
A confirmação definitiva dependerá das horas de serviço que os dois sistemas realmente acumularem antes de atingir seus respectivos limites de desgaste. Só então será possível determinar o quanto a diferença real se aproxima das 9.429 horas que atualmente separam as projeções.









