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O maior cânion do Sistema Solar ainda treme: falha ativa é descoberta sob Marte

Pesquisadores descobriram uma falha ativa sob Marte que provoca tremores a profundidades de até 40 quilômetros, desafiando a ideia de que o planeta não tem atividade tectônica.

O maior cânion do Sistema Solar ainda treme: falha ativa é descoberta sob Marte

Estudo publicado na Nature Communications revela movimentos tectônicos a profundidades de até 40 quilômetros. A descoberta mostra que antigas fraturas marcianas podem continuar liberando energia bilhões de anos depois.

O gigantesco sistema de cânions Valles Marineris, em Marte, continua registrando atividade tectônica, apesar de ter se formado há bilhões de anos. Uma pesquisa conduzida por cientistas do Imperial College London e da Universidade de Columbia identificou evidências de uma ruptura sísmica ocorrida entre 20 e 40 quilômetros abaixo da superfície marciana, demonstrando que algumas das antigas falhas do planeta ainda podem se deslocar e provocar terremotos.

A descoberta, publicada em 15 de outubro de 2026 na revista científica Nature Communications, baseia-se na análise de um tremor marciano registrado em 25 de agosto de 2021 pela missão InSight, da NASA.

A pesquisa apresenta novas evidências sobre o funcionamento interno de Marte e põe em xeque a ideia de que suas grandes estruturas geológicas sejam apenas vestígios de um passado tectônico.

Um cânion gigantesco, com quase 3.900 quilômetros, que ainda registra movimentos

Valles Marineris é o maior sistema de cânions conhecido do Sistema Solar.

Essa imensa formação geológica se estende por aproximadamente 3.900 quilômetros pela superfície de Marte, chega a 600 quilômetros de largura e tem trechos com mais de nove quilômetros de profundidade.

Suas dimensões superam em muito as do Grand Canyon, no Colorado, Estados Unidos.

Enquanto o famoso acidente geográfico terrestre tem aproximadamente 446 quilômetros de comprimento, Valles Marineris se estende por uma distância quase nove vezes maior.

O sistema marciano começou a se formar há bilhões de anos, quando intensos processos geológicos alteraram a crosta do planeta.

Entre os mecanismos relacionados à sua evolução estão fraturas tectônicas, o rebaixamento de blocos de terreno e outros processos que contribuíram para ampliar e aprofundar suas enormes depressões.

Durante décadas, cientistas identificaram falhas geológicas e deformações nas paredes do cânion por meio de imagens obtidas da órbita marciana.

No entanto, para determinar se essas estruturas continuavam ativas, eram necessárias evidências diretas do movimento das rochas abaixo da superfície.

O novo estudo traz justamente essas informações.

O terremoto registrado em 2021 que permitiu descobrir a falha

A pesquisa foi liderada por Jung-Hun Song, do Departamento de Ciências da Terra e Engenharia do Imperial College London, em parceria com pesquisadores da Universidade de Columbia e de outras instituições.

A equipe analisou um evento sísmico chamado S0976a, detectado pelo módulo InSight, da NASA, em 25 de agosto de 2021.

O tremor, cuja magnitude havia sido estimada anteriormente em aproximadamente 4,2, apresentou características especialmente interessantes.

Ao contrário de muitos tremores marcianos registrados relativamente perto da InSight, esse evento teve origem em uma região muito distante, no lado oposto do planeta em relação à localização do instrumento.

As primeiras análises haviam situado a origem do tremor nas proximidades de Valles Marineris, mas não conseguiram determinar com precisão suficiente qual processo havia provocado as vibrações.

A dificuldade era que Marte pode apresentar atividade sísmica por diferentes causas.

Além de rupturas em falhas geológicas, impactos de meteoritos e grandes deslizamentos de terra podem gerar ondas detectáveis por um sismômetro.

Para identificar a origem do tremor, os pesquisadores voltaram a analisar os registros captados pela InSight.

Ao examinar a amplitude, a polaridade e a propagação de diferentes ondas sísmicas, eles reconstruíram o mecanismo que melhor explicava as vibrações registradas.

Os resultados apontaram para uma ruptura por deslocamento lateral em uma falha profunda, situada sob o setor oeste de Valles Marineris.

Rochas deslizam horizontalmente a 40 quilômetros de profundidade

O mecanismo identificado corresponde a uma falha de deslocamento lateral, tecnicamente chamada de strike-slip.

Nesse tipo de movimento, dois blocos de rocha se deslocam horizontalmente um em relação ao outro ao longo de uma fratura.

O processo pode acumular tensões por longos períodos, até que a resistência da falha é vencida e ocorre uma ruptura que libera energia sísmica.

Os modelos analisados pela equipe situaram o evento entre aproximadamente 20 e 40 quilômetros de profundidade, embora o intervalo exato varie conforme o modelo utilizado para representar o interior de Marte.

A provável localização fica no setor oeste de Valles Marineris, perto de Ius Chasma, uma região marcada por sistemas de fraturas e estruturas tectônicas complexas.

Os pesquisadores também compararam diferentes explicações alternativas.

Entre elas, analisaram a possibilidade de as ondas terem sido geradas pelo impacto de um meteorito ou pelo colapso de grandes quantidades de material nas paredes do cânion.

No entanto, esses mecanismos não conseguiram reproduzir satisfatoriamente as características dos sinais sísmicos observados.

A equipe complementou a análise com imagens orbitais obtidas depois do evento, mas não encontrou crateras recentes nem grandes deslizamentos que explicassem o tremor.

A combinação de evidências sísmicas e geológicas levou à conclusão de que a ruptura tectônica é a explicação mais consistente.

Por que Marte tem terremotos se não possui placas tectônicas como a Terra

Um dos aspectos mais interessantes da descoberta é que Marte não apresenta um sistema global de placas tectônicas móveis comparável ao da Terra.

Na Terra, grande parte da atividade sísmica está associada ao movimento de enormes blocos da litosfera que colidem, se afastam ou deslizam uns sobre os outros.

Marte funciona de outra forma.

Sua camada externa se comporta principalmente como uma estrutura rígida, que esfria lentamente ao longo do tempo.

No entanto, isso não significa que o planeta tenha deixado de sofrer esforços internos.

A pesquisa propõe que diferentes processos podem contribuir para reativar fraturas antigas.

Entre eles estão a contração progressiva do planeta, associada ao seu resfriamento; as tensões geradas pela enorme região vulcânica de Tharsis; e as mudanças locais de carga relacionadas à evolução do próprio cânion.

Essas forças podem atuar sobre falhas formadas há bilhões de anos, aproveitando zonas de fraqueza preexistentes.

Assim, uma estrutura geológica muito antiga pode voltar a sofrer deslocamentos sem que haja tectônica de placas ativa.

O resultado também traz informações sobre como os planetas rochosos liberam os esforços acumulados em suas camadas externas ao longo de períodos extremamente longos.

Missão encerrada em 2022 continua revelando segredos de Marte

A descoberta também demonstra o valor científico dos dados coletados pela missão InSight.

O módulo de pouso chegou a Marte em novembro de 2018 com o objetivo de estudar o interior do planeta por meio de instrumentos geofísicos, especialmente um sismômetro de alta sensibilidade.

Durante sua operação, registrou mais de 1.300 eventos sísmicos, fornecendo informações sobre a estrutura da crosta, do manto e do núcleo marcianos.

A NASA encerrou a missão em dezembro de 2022, depois que o acúmulo de poeira sobre os painéis solares reduziu a energia disponível a ponto de impedir a continuidade das operações.

Embora o equipamento tenha parado de funcionar, seus registros continuam disponíveis para novas pesquisas.

O evento S0976a é especialmente valioso porque suas ondas percorreram grandes distâncias por Marte e permitiram estudar tanto as propriedades do interior profundo do planeta quanto o mecanismo da ruptura original.

Sua interpretação agora inclui Valles Marineris entre as regiões marcianas com evidências sísmicas de atividade tectônica recente.

Outras áreas estudadas com base nos dados da InSight incluem Cerberus Fossae e setores do sul de Elysium Planitia, onde foram identificados diferentes mecanismos de deformação.

O que ainda falta descobrir sob Valles Marineris

Embora os resultados constituam evidência sólida de atividade tectônica, ainda há limitações importantes.

A InSight dispunha de uma única estação sísmica, o que dificulta localizar os eventos e reconstruir seus mecanismos com a precisão possível com redes de vários instrumentos instaladas na Terra.

Além disso, o estudo analisa um evento específico e, portanto, não estabelece a frequência atual de terremotos sob Valles Marineris nem demonstra que todas as falhas do sistema continuem ativas.

Os pesquisadores também não identificaram tremores secundários diretamente associados ao S0976a.

No entanto, os modelos mostram que pequenos movimentos posteriores podem ter passado despercebidos devido à distância entre o cânion e o módulo InSight e às dificuldades de propagação das ondas.

Por enquanto, a descoberta confirma que pelo menos uma zona de falha sob Valles Marineris sofreu uma ruptura tectônica em tempos recentes, muito depois da formação original do sistema.

A descoberta amplia o conhecimento sobre a evolução de Marte e fornece novas pistas para investigar a atividade geológica de outros corpos rochosos aparentemente inativos.

Sob uma das paisagens mais impressionantes do Sistema Solar, as antigas fraturas do planeta vermelho ainda podem se mover e liberar energia sísmica.