Pesquisa Mineral

Alasca impulsiona pesquisa sobre minerais críticos com US$15 milhões e parceria entre universidade e setor de mineração

Alasca concentra 56 dos 60 minerais críticos dos EUA, mas essa riqueza geológica ainda precisa se transformar em operações economicamente viáveis.

Alasca impulsiona pesquisa sobre minerais críticos com US$15 milhões e parceria entre universidade e setor de mineração

A Universidade do Alasca Fairbanks lidera uma iniciativa que reúne empresas de mineração, comunidades e instituições científicas para desenvolver tecnologias de exploração, processamento e recuperação de minerais estratégicos. O programa poderá receber até US$160 milhões em financiamento federal ao longo de dez anos.

O Alasca avança na criação de um centro de pesquisa e inovação em mineração, apoiado pela Universidade do Alasca Fairbanks (UAF), por empresas do setor extrativo e por organizações regionais. A iniciativa, denominada NSF Critical Mineral Accelerator Engine in Alaska, conta com financiamento inicial de US$15 milhões para os dois primeiros anos e busca acelerar o desenvolvimento de tecnologias aplicadas à exploração, à recuperação e ao processamento de minerais críticos nos Estados Unidos.

O programa foi selecionado em 14 de julho de 2026 entre as iniciativas de inovação regional financiadas pela National Science Foundation (NSF). Em outubro, os participantes avançaram na coordenação de projetos de pesquisa, na identificação das necessidades tecnológicas das mineradoras e na construção de relações com potenciais investidores.

A iniciativa poderá receber até US$160 milhões ao longo de dez anos, embora os recursos adicionais dependam do cumprimento de metas, de avaliações de desempenho e da disponibilidade orçamentária.

O projeto ganha relevância em um cenário no qual os Estados Unidos buscam ampliar sua capacidade de produzir e processar minerais usados na defesa, na eletrônica, no armazenamento de energia e na manufatura avançada.

Alasca concentra 56 dos 60 minerais considerados críticos pelos Estados Unidos

Um dos principais fatores por trás da iniciativa é o potencial geológico do Alasca.

O estado registra a presença de 56 dos 60 minerais incluídos na lista americana de minerais críticos, o que o posiciona como território estratégico para a pesquisa geológica e o desenvolvimento de novas cadeias de suprimento.

Essa diversidade inclui recursos associados a sistemas minerais de cobre, zinco, chumbo, grafita, terras raras e outros elementos usados em aplicações industriais e tecnológicas.

No entanto, a presença geológica de um mineral não garante a existência de depósitos economicamente viáveis.

Para transformar esses recursos em operações produtivas, são necessários estudos geológicos, caracterização mineralógica, testes metalúrgicos, infraestrutura, licenças e financiamento.

No Alasca, esses desafios são especialmente relevantes devido às condições climáticas, às distâncias entre os centros habitados e os depósitos minerais e à disponibilidade de infraestrutura energética e de transporte.

O novo programa busca enfrentar parte dessas limitações por meio de pesquisa aplicada e da colaboração entre universidades, empresas e órgãos especializados.

Mineradoras participam do desenvolvimento de novas tecnologias

Um dos diferenciais do projeto é a participação de empresas de mineração e organizações regionais na identificação de desafios tecnológicos que podem ser solucionados por meio da pesquisa.

A iniciativa é liderada por Lee Ann Munk, pesquisadora de geociências da Universidade do Alasca Fairbanks, que coordena a articulação do programa com instituições científicas, empresas e entidades ligadas ao desenvolvimento econômico regional.

Entre os participantes do ecossistema estão organizações de povos originários do Alasca, mineradoras, especialistas em recursos naturais, laboratórios e órgãos públicos.

A Alaska Silver está entre as empresas ligadas à iniciativa e contribui com a perspectiva da exploração de depósitos minerais no oeste do estado.

A colaboração prevê a identificação de desafios concretos relacionados à exploração, ao processamento e à recuperação de minerais, seguida pelo desenvolvimento de soluções que possam ser validadas em condições operacionais.

Ao contrário dos programas exclusivamente acadêmicos, esse modelo inclui metas relacionadas à transferência de tecnologia, à comercialização e à formação de trabalhadores.

Isso permitirá direcionar parte da pesquisa às necessidades produtivas enfrentadas atualmente pelas mineradoras.

Inteligência artificial e biotecnologia vão orientar a pesquisa em mineração

O programa prevê várias linhas tecnológicas voltadas a melhorar o aproveitamento dos recursos minerais.

Uma delas é a aplicação de inteligência artificial à exploração geoquímica, com ferramentas capazes de integrar informações geológicas e identificar padrões associados a possíveis concentrações minerais.

Esses recursos podem ajudar na seleção de alvos de exploração, na interpretação de grandes volumes de dados e no planejamento de campanhas de campo.

Outra linha envolve o desenvolvimento de técnicas de bioextração, que utilizam processos biológicos para recuperar elementos metálicos de determinados materiais.

A pesquisa também inclui tecnologias avançadas de processamento e purificação, voltadas a aumentar a eficiência da recuperação e ampliar as alternativas para obter produtos de qualidade industrial.

As áreas prioritárias incluem inteligência artificial, biotecnologia, novos materiais, manufatura avançada e tecnologias energéticas.

O objetivo é conectar essas disciplinas às necessidades do setor de mineração e desenvolver soluções que possam sair do laboratório e chegar a aplicações comerciais.

Os resultados, porém, dependerão da validação técnica de cada tecnologia. Uma melhoria comprovada em laboratório não necessariamente terá o mesmo desempenho quando aplicada a grandes volumes de material.

Outra pesquisa mobiliza US$6 milhões para recuperar terras raras

Paralelamente ao programa de inovação mineral, a Universidade do Alasca participa de outra iniciativa financiada pela National Science Foundation.

O projeto, de US$6 millones e duração de quatro anos, busca investigar novas técnicas para recuperar elementos de terras raras de resíduos de carvão e cinzas.

A pesquisa reúne a Universidade do Alasca Fairbanks, a Universidade do Alasca Anchorage, a Montana Technological University e a Universidade de Wyoming.

O objetivo é desenvolver um sistema experimental de biorrefinaria inteligente que combine microrganismos, processamento mineral e inteligência artificial.

A Universidade do Alasca Fairbanks participa com um financiamento de cerca de US$913.000 dentro do orçamento total.

Os pesquisadores vão estudar como determinados microrganismos podem facilitar a extração e a concentração de elementos de terras raras presentes em materiais residuais.

Em seguida, as soluções serão submetidas a testes de laboratório e ensaios-piloto para avaliar a recuperação, o consumo de energia, os custos e os impactos ambientais.

Este projeto é uma linha de pesquisa independente do programa Critical Mineral Accelerator Engine. Por isso, seus orçamentos e objetivos não devem ser confundidos.

As duas iniciativas, porém, mostram como o Alasca está ampliando sua capacidade científica para desenvolver novas tecnologias de processamento mineral.

O desafio de recuperar minerais de resíduos industriais

A recuperação de elementos estratégicos de materiais secundários é uma oportunidade que desperta interesse crescente na indústria de mineração.

Em alguns casos, resíduos de atividades extrativas ou de processos industriais podem conter concentrações de metais que justificam uma avaliação técnica adicional.

A possibilidade de obter produtos comerciais a partir desses materiais depende de fatores como a concentração do elemento, sua associação mineralógica, a recuperação metalúrgica e os custos de processamento.

A pesquisa desenvolvida no Alasca busca verificar se o uso de microrganismos e ferramentas computacionais pode melhorar esses processos.

A abordagem também considera a redução dos impactos ambientais por meio de tecnologias de extração potencialmente menos intensivas no uso de determinados reagentes químicos.

No entanto, esses benefícios terão de ser comprovados por ensaios comparativos e avaliações de ciclo de vida.

Para empresas de mineração com instalações em operação, as tecnologias de recuperação secundária podem ser uma alternativa para ampliar o aproveitamento de recursos, desde que os resultados técnicos e econômicos sejam favoráveis.

Financiamento, emprego e transferência de tecnologia

O programa liderado pela Universidade do Alasca Fairbanks faz parte de uma seleção nacional de doze iniciativas regionais de inovação financiadas em 2026.

Cada programa recebeu um aporte inicial de US$15 milhões para os dois primeiros anos.

No caso do Alasca, há a possibilidade de ampliar o financiamento para até US$160 milhões ao longo de uma década, dependendo do cumprimento de metas e de decisões orçamentárias posteriores.

O governo estadual e a legislatura também se comprometeram a destinar US$500.000 em financiamento extraordinário relacionado à seleção do projeto.

Os recursos apoiam o desenvolvimento inicial de uma estrutura que busca conectar pesquisa científica, inovação empresarial e qualificação profissional.

O programa prevê ampliar as oportunidades de capacitação para estudantes, técnicos e profissionais ligados à mineração, à engenharia, à tecnologia e ao processamento de materiais.

A iniciativa também busca facilitar a participação de comunidades do Alasca em atividades econômicas relacionadas ao desenvolvimento de minerais críticos.

A criação efetiva de empregos e de novas empresas dependerá do avanço dos projetos e de sua capacidade de atrair investimentos adicionais.

O que essa experiência representa para a mineração chilena

O modelo de colaboração impulsionado no Alasca oferece referências relevantes para países com forte atividade de mineração, como o Chile.

A indústria chilena enfrenta desafios relacionados a teores mais baixos em diferentes depósitos, maiores exigências de processamento, custos operacionais e necessidade de incorporar tecnologias avançadas.

A articulação entre universidades, centros tecnológicos, empresas de mineração e fornecedores é fundamental para desenvolver soluções aplicáveis a esses desafios.

O programa dos Estados Unidos se destaca especialmente por integrar pesquisa geológica, inteligência artificial, biotecnologia e formação de capital humano em uma mesma estrutura.

Para o Chile, essas áreas também podem ser relevantes em projetos de recuperação de minerais de resíduos, caracterização de depósitos complexos e otimização de processos metalúrgicos.

As pesquisas sobre terras raras e outros elementos estratégicos podem oferecer novas ferramentas para avaliar oportunidades de diversificação da mineração, sem que isso implique presumir a existência de recursos economicamente recuperáveis onde eles ainda não foram comprovados.

Outro aspecto relevante é a participação das empresas desde as primeiras etapas da pesquisa.

Esse mecanismo permite direcionar os projetos científicos a problemas concretos e estabelecer condições para a transferência de tecnologia em etapas posteriores.

Os próximos dois anos serão decisivos para o programa

A iniciativa do Alasca entra em uma etapa na qual terá de demonstrar resultados para além da articulação institucional.

Nos dois primeiros anos, o programa terá de consolidar parcerias, selecionar projetos tecnológicos, estabelecer mecanismos de colaboração e avançar para aplicações que possam ser avaliadas pela indústria.

A formação de trabalhadores especializados e a participação de empresas também serão indicadores importantes para determinar o impacto regional.

O cumprimento dessas metas será determinante para acessar etapas posteriores de financiamento federal.

Um dos principais desafios será desenvolver tecnologias capazes de operar nas condições locais, onde as baixas temperaturas, as grandes distâncias e as necessidades de infraestrutura afetam diretamente os custos da mineração.

A iniciativa ainda não representa a abertura de uma nova mina nem um aumento confirmado da produção, mas um investimento destinado a desenvolver as capacidades científicas e tecnológicas necessárias para projetos futuros.

Sua importância está em estabelecer um mecanismo de colaboração de longo prazo entre a pesquisa universitária e a indústria da mineração, com o objetivo de transformar conhecimento geológico em soluções produtivas.

Com US$15 milhões iniciais, participação empresarial e uma carteira de pesquisas em inteligência artificial, processamento e biotecnologia, o Alasca busca fortalecer sua posição no desenvolvimento de minerais estratégicos.

O verdadeiro resultado dessa aposta será conhecido quando as tecnologias desenvolvidas superarem os testes experimentais e demonstrarem capacidade para aprimorar processos de mineração, recuperar recursos e viabilizar novos investimentos.