
A operação prevê receitas vinculadas a 90% da prata pagável do complexo mineiro El Bagre, em Antioquia, e compromissos equivalentes a 305.500 onças. O acordo permitirá à Soma Gold obter financiamento sem emitir novas ações para apoiar o crescimento operacional.
A canadense Silver Crown Royalties Inc. firmou um acordo definitivo com a Soma Gold Corp. para adquirir, por US$10 milhões, direitos econômicos sobre a produção de prata do complexo aurífero El Bagre, localizado no departamento de Antioquia, na Colômbia. A transação, anunciada em 2 de novembro de 2026, prevê pagamentos vinculados a 90% da prata pagável e estabelece compromissos mínimos equivalentes a 305.500 onças ao longo de aproximadamente cinco anos e meio.
Assinado em 31 de outubro, o contrato é uma operação de financiamento de mineração baseada em royalties, instrumento que permite às produtoras levantar capital por meio da monetização de receitas futuras provenientes de determinados minerais.
Com o acordo, a Soma Gold poderá obter recursos financeiros sem recorrer a um aumento de capital, enquanto a Silver Crown incluirá em seu portfólio direitos sobre um ativo aurífero que está em produção há mais de uma década.
A operação também reflete o interesse crescente de investidores especializados em receitas associadas a metais preciosos produzidos como subprodutos de operações cujo principal objetivo comercial é outro mineral.
US$10 milhões para financiar operações e crescimento na mineração
O acordo prevê que a Silver Crown desembolse US$10 milhões em duas etapas, sujeitas ao cumprimento de condições contratuais e financeiras.
A primeira etapa prevê US$3 milhões, com fechamento previsto para 30 de novembro de 2026. A partir daí, o royalty começará a vigorar, com direitos equivalentes a 30% das condições econômicas totais acordadas.
O segundo desembolso será de US$7 milhões e dependerá da liberação das garantias constituídas em favor do atual financiador de ouro da Soma Gold, além do registro de novas garantias em favor da Silver Crown.
A mineradora espera concluir esse processo antes de 31 de dezembro de 2026.
Se as garantias existentes não forem liberadas dentro do prazo estabelecido, a Silver Crown poderá exigir a recompra do royalty por US$3 milhões, acrescidos de juros e dos pagamentos referentes ao trimestre anterior.
Esse mecanismo oferece proteção contratual ao investidor, mas também mostra que a conclusão do financiamento ainda depende de condições pendentes.
Para a Soma Gold, o principal atrativo é obter liquidez por meio da monetização antecipada de parte das receitas futuras de prata, sem alterar a participação acionária dos atuais investidores.
A empresa destinará os recursos ao apoio de prioridades operacionais, ao desenvolvimento de sua plataforma produtiva na Colômbia e à avaliação de novas oportunidades de crescimento.
El Bagre: complexo aurífero com produção subterrânea
O complexo mineiro El Bagre fica na região do Baixo Cauca, a aproximadamente 200 quilômetros a nordeste de Medellín.
O ativo pertence integralmente à Soma Gold e é operado por sua subsidiária colombiana Operadora Minera S.A.S.
A infraestrutura inclui a mina subterrânea Cordero e uma planta de processamento de ouro que recebe minério extraído da mina.
O ativo tem mais de dez anos de histórico produtivo e já comercializou ouro e prata.
O novo royalty também abrange minério proveniente das minas La Ye e Los Mangos, anteriormente exploradas, dentro das concessões definidas no contrato.
A Soma Gold possui duas propriedades minerárias adjacentes em Antioquia, com capacidade conjunta de processamento de 675 toneladas por dia e licenças para chegar a 1.400 toneladas diárias.
Esses números se referem à capacidade de processamento das instalações e não constituem uma projeção de produção efetiva.
A existência de infraestrutura em operação é relevante para a Silver Crown, pois permite vincular o instrumento financeiro a uma operação que já tem atividade de mineração e comercializa metais.
Ainda assim, as receitas futuras continuarão sujeitas a fatores como continuidade operacional, volumes de minério processado, recuperação metalúrgica e condições do mercado da prata.
Royalty sobre 90% da prata e compromissos de 305.500 onças
A estrutura econômica é um dos principais aspectos do contrato.
Na etapa inicial, a Silver Crown terá direito a pagamentos trimestrais equivalentes ao maior valor entre 90% da prata pagável produzida pelo projeto e as entregas mínimas previstas em contrato.
Os pagamentos serão liquidados em dinheiro, com base no preço internacional da prata da London Bullion Market Association e as deduções aplicáveis.
O cronograma prevê os seguintes compromissos mínimos equivalentes em prata:
|
Período |
Onças de prata |
|---|---|
|
Quarto trimestre de 2026 |
5.500 |
|
2027 |
30.000 |
|
2028 |
60.000 |
|
2029 |
60.000 |
|
2030 |
60.000 |
|
2031 |
60.000 |
|
Primeiro semestre de 2032 |
30.000 |
|
Total |
305.500 |
O compromisso referente a 2026 depende do fechamento da primeira etapa dentro do prazo previsto.
Volumes acima dos mínimos trimestrais poderão ser contabilizados para atingir antecipadamente o limite estabelecido em contrato.
Depois de atingido esse limite, o mecanismo se transformará em um royalty de 7,5% sobre a receita líquida de fundição associada à prata, conhecido internacionalmente como Net Smelter Return (NSR).
Esse direito permanecerá vigente durante toda a vida do projeto.
É importante ressaltar que as 305.500 onças representam um limite econômico contratual, e não uma nova estimativa de recursos minerais, reservas ou produção certificada.
Silver Crown projeta aumento da receita com prata em 2027 e 2028
A aquisição também altera as perspectivas financeiras da Silver Crown.
A companhia estima que a incorporação de El Bagre poderá elevar em aproximadamente 29% suas receitas atribuíveis, medidas em onças de prata, em 2027 e em 57% em 2028.
Essas projeções dependem da conclusão da operação, do cumprimento das obrigações contratuais e do desempenho dos ativos envolvidos.
Após a conclusão da aquisição, a Silver Crown terá nove royalties sobre prata distribuídos em sete projetos.
A Colômbia será sua terceira jurisdição com ativos produtores, ampliando a diversificação geográfica de um portfólio com exposição significativa ao Peru.
Para uma empresa especializada em royalties, essa diversificação permite distribuir o risco operacional entre diferentes operações, jurisdições e companhias produtoras.
Ao contrário de uma mineradora convencional, a Silver Crown não será responsável pela administração da lavra, pelos custos diários de extração nem pelas decisões operacionais do complexo colombiano.
Sua exposição econômica estará vinculada ao cumprimento das obrigações contratuais e ao comportamento das receitas provenientes da prata.
Ainda assim, esse modelo não elimina os riscos relacionados a interrupções na produção, problemas financeiros do operador, restrições regulatórias ou oscilações nos preços internacionais.
A prata como alternativa para financiar projetos auríferos
Um dos aspectos mais relevantes da operação é que a Soma Gold está monetizando um metal secundário de seu negócio principal.
A prata representa aproximadamente 1% da receita operacional atual da companhia.
Apesar dessa participação relativamente pequena, os direitos sobre a produção futura permitem estruturar uma operação financeira de US$ 10 milhões.
Isso mostra como subprodutos minerais podem se transformar em instrumentos de financiamento, especialmente quando há um histórico de produção que permite avaliar os fluxos econômicos do ativo.
O modelo difere de um empréstimo bancário tradicional.
Enquanto um crédito convencional prevê o pagamento de principal e juros, um royalty de mineração permite negociar direitos econômicos associados à produção ou à comercialização futura de minerais.
Para a empresa produtora, a principal vantagem pode ser a possibilidade de captar recursos sem emitir ações adicionais.
Em contrapartida, parte da receita futura do mineral comprometido ficará vinculada ao investidor durante o período estabelecido e, posteriormente, conforme as condições residuais do royalty.
No caso da Soma Gold, o acordo limita esses direitos à prata pagável proveniente das áreas de mineração definidas, sem estendê-los automaticamente a outras propriedades, instalações ou ao minério de terceiros processado fora do escopo contratual.
O que essa operação representa para o financiamento da mineração na América Latina
A transação entre a Silver Crown e a Soma Gold apresenta uma alternativa de financiamento para operações de mineração na América Latina que já têm produção comercial e precisam de capital para manter ou ampliar suas atividades.
Em mercados como os do Chile, do Peru e da Colômbia, contratos de royalties e acordos vinculados à produção futura podem complementar o financiamento bancário e as emissões de ações.
Sua utilização exige uma avaliação cuidadosa das receitas comprometidas, da vida útil do ativo, das garantias disponíveis e dos efeitos de longo prazo sobre o fluxo de caixa.
Para mineradoras de ouro que recuperam prata como subproduto, esse tipo de instrumento permite separar parcialmente o valor econômico dos dois metais e usar um deles para financiar o desenvolvimento do negócio principal.
Em El Bagre, os próximos passos se concentrarão na conclusão prevista para novembro, na liberação das garantias financeiras e na ativação integral dos direitos econômicos durante dezembro.
O cumprimento dessas condições determinará quando a Soma Gold poderá dispor da totalidade dos US$ 10 milhões e quando a Silver Crown começará a receber integralmente os benefícios do royalty.
Além dessa transação, o acordo evidencia uma tendência relevante para o setor: a receita futura de minerais secundários pode se tornar uma fonte concreta de capital, sem a necessidade de transferir a propriedade da operação de mineração nem incorporar novos acionistas.
Para as empresas que buscam financiar projetos, exploração ou continuidade operacional, o desafio será equilibrar a liquidez imediata com o valor econômico da produção comprometida no longo prazo.










