Energia

AGN alerta para entraves regulatórios ao aumento do uso de gás no Chile

A Associação de Empresas de Gás Natural alerta que os carregamentos podem levar até 45 dias para chegar, enquanto as necessidades de eletricidade mudam rapidamente. A entidade propõe alterações regulatórias para facilitar novas contratações.

AGN alerta para entraves regulatórios ao aumento do uso de gás no Chile

O Chile tem infraestrutura para receber mais gás natural liquefeito (GNL), mas as regras do mercado elétrico estariam desestimulando a contratação do combustível, inclusive em períodos em que as usinas precisam de fontes de energia de reserva. O alerta foi feito pela Associação de Empresas de Gás Natural (AGN Chile) durante o sexto Fórum Internacional GNL Global, realizado entre 19 e 21 de outubro de 2026, em Santiago. Na ocasião, a entidade pediu uma revisão das regras que definem como esse combustível é comprado e usado na geração de eletricidade.

O presidente executivo da AGN Chile, Carlos Cortés Simon, afirmou que o desafio não está apenas na disponibilidade internacional do recurso, mas também nas condições enfrentadas pelas empresas ao contratar carregamentos cujo uso depende da operação futura do Sistema Elétrico Nacional.

“No Chile, não falta gás. Faltam regras que permitam contratá-lo a tempo e usá-lo bem”, afirmou o dirigente durante o encontro.

A proposta busca aproveitar melhor a infraestrutura energética existente e reduzir os riscos comerciais associados à compra de GNL. No entanto, é uma solicitação do setor privado, e não uma mudança regulatória aprovada pelas autoridades.

O desafio dos navios que levam até 45 dias para chegar ao Chile

Uma das principais dificuldades apontadas pela AGN Chile está relacionada ao tempo necessário para comprar e transportar gás natural liquefeito dos mercados internacionais.

Um carregamento comprado no mercado de curto prazo, conhecido como spot, pode levar de 30 a 45 dias para chegar ao país. Nesse período, as condições do sistema elétrico podem mudar significativamente.

A geração hidrelétrica pode aumentar com novas chuvas, as usinas solares e eólicas podem contar com mais recursos, ou a demanda por eletricidade pode se comportar de forma diferente das projeções iniciais.

Com isso, uma empresa geradora que contrata antecipadamente um navio de GNL corre o risco de receber o combustível quando o sistema já não precisa utilizá-lo na quantidade prevista.

Esse cenário gera riscos econômicos, especialmente quando há compromissos de recebimento, limitações de armazenamento e dificuldades para comercializar os excedentes.

Isso não significa que os navios necessariamente tenham de voltar sem descarregar ou que todo o combustível comprado seja perdido. A dificuldade está em administrar um recurso contratado com antecedência, cujo consumo depende de decisões operacionais posteriores.

A programação dos terminais de importação considera calendários de descarga, capacidade de armazenamento e compromissos com diferentes clientes. Esses fatores limitam a possibilidade de alterar as entregas sem afetar outros participantes.

As regras que, segundo a entidade, desestimulam a compra de gás

A Associação encomendou à consultoria energiE um estudo intitulado Propostas regulatórias para uma contratação mais eficiente de gás natural no mercado elétrico, que aponta problemas nos incentivos à compra de combustível para as usinas.

A análise identifica três dificuldades: os prazos de contratação e transporte, o tratamento regulatório do gás comprado no mercado de curto prazo e os riscos comerciais enfrentados pelas geradoras quando não conseguem utilizar os volumes contratados.

Um dos pontos centrais é a Norma Técnica de GNL, que regulamenta a programação e a coordenação das unidades de geração elétrica movidas a gás natural liquefeito regaseificado.

A norma prevê mecanismos para lidar com situações em que há restrições relacionadas ao fornecimento, ao armazenamento ou ao recebimento do combustível.

Entre eles está a chamada condição de inflexibilidade, que permite considerar determinadas limitações logísticas na programação das usinas, conforme requisitos específicos e sob supervisão do Coordenador Elétrico Nacional.

A AGN afirma que o tratamento dado ao gás comprado no mercado spot restringe as ferramentas disponíveis para administrar esses riscos.

Na avaliação da entidade, essa incerteza pode levar as empresas a limitar os volumes comprados, mesmo quando há oportunidades de abastecimento no mercado internacional.

A consultoria propõe enfrentar as dificuldades com ajustes à regulamentação vigente, sem necessidade de aprovar uma nova lei.

Entre as alternativas sugeridas estão mudanças em regulamentos relacionados à coordenação, à operação e à segurança do sistema elétrico, além de instrumentos de planejamento que permitam antecipar as futuras necessidades de energia de reserva.

O custo de recorrer ao diesel quando o sistema precisa de energia de reserva

O tema ganha relevância diante da transformação da matriz de geração elétrica chilena, marcada pela crescente participação de usinas solares e eólicas.

Essas tecnologias permitem gerar eletricidade sem queimar combustíveis durante a operação, mas sua disponibilidade depende das condições meteorológicas e dos ciclos diários.

Quando a geração renovável diminui, o sistema precisa recorrer a outras fontes capazes de atender à demanda. Essa energia de reserva pode vir de usinas hidrelétricas, sistemas de armazenamento ou unidades termelétricas, entre outras alternativas.

Em determinadas circunstâncias, as usinas a gás natural podem ajudar a atender a essas necessidades.

A AGN Chile citou como exemplo a situação registrada em 16 de junho de 2025, quando uma interrupção no fornecimento de gás argentino, combinada com uma falha na infraestrutura de transmissão de 500 quilovolts, obrigou o sistema a recorrer a aproximadamente 1.340 megawatts de geração de reserva a diesel.

O episódio gerou um sobrecusto sistêmico estimado em US$9,3 milhões, de acordo com os dados apresentados pela associação.

No entanto, essa contingência foi resultado de uma combinação de problemas de abastecimento e transmissão. Portanto, por si só, não demonstra que uma mudança nas regras de contratação de GNL teria evitado completamente o gasto.

A associação também destacou que, entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 2.680 gigawatts-hora de energia renovável vertida — ou seja, uma produção que não pôde ser efetivamente aproveitada pelo sistema.

As duas situações refletem desafios distintos: de um lado, as limitações para utilizar a geração renovável disponível; de outro, a necessidade de contar com geração de reserva quando a oferta de eletricidade é insuficiente.

Chile dispõe de terminais e infraestrutura para receber GNL

A proposta da AGN se apoia na infraestrutura que o Chile construiu nas últimas décadas para diversificar suas fontes de abastecimento energético.

O país conta com dois terminais de recebimento e regaseificação de GNL, localizados em Quintero, na Região de Valparaíso, e Mejillones, na Região de Antofagasta.

Essas instalações recebem gás natural liquefeito transportado por via marítima, armazenam o produto e o devolvem ao estado gasoso para distribuição por gasodutos.

A essa capacidade soma-se a infraestrutura de interconexão com a Argentina, que permite receber gás natural por dutos, conforme as condições comerciais e operacionais aplicáveis.

De acordo com as estimativas apresentadas pela AGN, a cadeia de valor do gás natural no Chile acumula investimentos de aproximadamente US$15.000 milhões.

A associação considera que o melhor aproveitamento desses ativos poderia reforçar a segurança do abastecimento dos setores elétrico, industrial, comercial e residencial.

No entanto, uma maior disponibilidade física de gás não garante automaticamente preços mais baixos. Os custos finais também dependem do preço internacional do combustível, do transporte marítimo, da regaseificação, dos contratos e das condições de despacho.

A discussão já chegou às autoridades do setor energético

A proposta não surgiu no fórum realizado em outubro.

O estudo elaborado pela energiE foi apresentado em 2026 a representantes do Ministério da Energia e de órgãos ligados à operação e à regulação do setor elétrico.

Em 7 de outubro, a AGN se reuniu com o secretário-executivo da Comissão Nacional de Energia, Carlos Barria, para discutir o abastecimento de combustíveis, as necessidades de geração de reserva e os desafios regulatórios.

A discussão também tem antecedentes na área de concorrência. Em março de 2026, o Tribunal de Defesa da Livre Concorrência rejeitou uma ação contra a CNE relacionada à condição de inflexibilidade do GNL, por concluir que não foram comprovadas as infrações à livre concorrência alegadas.

A decisão não impede o debate sobre possíveis melhorias regulatórias, mas mostra que os mecanismos de despacho também devem levar em conta seus possíveis efeitos sobre outras tecnologias e participantes do mercado.

Até o momento, as autoridades não tomaram uma decisão definitiva sobre as mudanças específicas solicitadas pela AGN Chile.

A associação quer que as regras permitam antecipar a contratação de combustíveis e reduzir a exposição econômica das geradoras. A avaliação pendente é determinar se essas mudanças podem aumentar a segurança e a eficiência do sistema sem distorcer a concorrência nem repassar custos injustificados aos consumidores.