Inovação e Tecnologia

Ao comparar procedimentos com IA, peça a fonte de cada alteração antes de aprová-la

Uma pequena mudança entre duas versões pode ficar escondida em páginas de instruções quase idênticas.

Ao comparar procedimentos com IA, peça a fonte de cada alteração antes de aprová-la

Comparar dois procedimentos com inteligência artificial pode ajudar a encontrar mudanças que passam despercebidas numa leitura rápida, mas o resultado só serve para revisão se cada diferença puder ser rastreada até os documentos originais. A instrução principal é pedir uma comparação separada por versão, com citações literais e localização precisa; se a ferramenta não encontrar uma referência, deve sinalizar o achado como não verificado, em vez de preencher a lacuna por conta própria.

O método pode ser aplicado a instruções de manutenção, segurança, operação ou controle de documentos. Como referência pública, a norma norte-americana 29 CFR 1910.147, sobre controle de energias perigosas, exige que os procedimentos aplicáveis descrevam, entre outros aspectos, o propósito e as etapas para parar, isolar e proteger equipamentos. O guia da Administração de Segurança e Saúde Ocupacional (OSHA) também aborda as inspeções periódicas e a revisão de responsabilidades. É um exemplo pertinente para testar uma comparação: detalhes como uma sequência de bloqueio ou uma verificação podem ter consequências práticas.

Peça uma tabela de alterações com citações das duas versões

Antes de carregar os arquivos, identifique qual é a versão anterior e qual é a nova; mantenha os nomes, as datas e, se disponíveis, os números de revisão. Em seguida, anexe os dois documentos e use uma instrução como esta:

> Compare apenas os arquivos anexados. Considere o documento A como a versão anterior e o documento B como a nova versão. Não complete informações ausentes nem deduza alterações que não estejam escritas. Apresente uma tabela com: seção ou página; texto anterior citado literalmente; texto novo citado literalmente; tipo de alteração (adicionado, removido, substituído ou reordenado); explicação breve e neutra. Para cada diferença, indique a página e o título que permitem localizá-la em cada arquivo. Se não conseguir localizar ou citar o trecho nos dois documentos, escreva “não verificado”. Ao final, indique páginas, tabelas ou imagens que não conseguiu ler. Não recomende aprovar as alterações.

Para fazer um teste reproduzível, é possível usar o conteúdo público da OSHA sobre procedimentos de controle de energia e preparar dois arquivos de teste: um que inclua uma etapa de verificação antes da manutenção e outro que a omita. O resultado esperado não é uma opinião sobre segurança, mas uma diferença localizada e duas citações que permitam confirmar o que diz cada arquivo. O exemplo é um exercício de comparação, não uma afirmação de que a OSHA tenha publicado essas duas versões de um mesmo procedimento.

A tabela deve manter separadas as mudanças e as observações sobre seus possíveis efeitos. Se o modelo disser que uma alteração “reduz o risco” ou “elimina uma verificação”, é preciso exigir que indique qual texto sustenta essa conclusão; uma descrição plausível não equivale a uma avaliação técnica.

A extração pode deixar de fora tabelas, imagens ou páginas

Os assistentes podem aceitar arquivos PDF, DOCX e outros formatos, mas o fato de um arquivo ser carregado não garante que todo o seu conteúdo tenha sido interpretado. A documentação da OpenAI, por exemplo, descreve funções para analisar arquivos e comparar documentos; também alerta que a extração de dados pode não ser confiável em documentos digitalizados, tabelas em formato de imagem ou layouts complexos. Em alguns fluxos, o processamento de PDFs inclui elementos visuais; em outros, limita-se ao texto extraído. Por isso, convém verificar especialmente diagramas, quadros, notas de margem, cabeçalhos e rodapés.

Se o procedimento for longo, peça que o trabalho seja feito por capítulos e registre quais seções foram revisadas. Um sistema pode recuperar apenas trechos pertinentes ou deixar conteúdo passar despercebido; não interprete uma resposta indicando que não houve mudanças como prova de que as versões são idênticas. Para documentos editáveis, uma função de comparação de alterações também pode oferecer uma verificação mecânica: o Microsoft Word, por exemplo, gera um terceiro documento com marcas de revisão ao comparar duas versões. Esse resultado ajuda a localizar diferenças no texto, mas não determina, por si só, se a alteração está correta ou é segura.

Verifique cada achado nos documentos originais antes de aprová-lo

A revisão final consiste em abrir os dois arquivos e conferir cada linha: se as citações existem, correspondem à versão indicada e mantêm números, unidades, negações, condições e exceções. Se o modelo indicar uma página, mas o documento estiver numerado de outra forma — algo comum em PDFs com capa —, confirme também o título ou copie algumas palavras do trecho para encontrá-lo. Um registro de versão e uma cópia sem alterações permitem repetir a verificação depois.

O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), em seu perfil de riscos da IA generativa publicado em 26 de julho de 2024, descreve a “confabulação”: sistemas que apresentam conteúdo falso ou impreciso com segurança, inclusive citações que parecem justificar uma resposta. Por isso, uma referência produzida pela IA não se valida sozinha: deve ser confrontada com o arquivo-fonte.

Em procedimentos críticos — por exemplo, os que afetam a segurança, o isolamento de equipamentos ou os controles operacionais —, a IA pode ajudar a detectar e classificar alterações, mas a aprovação deve ficar a cargo de uma pessoa competente, com acesso aos originais e autoridade para revisar o procedimento completo. Se uma citação não for encontrada ou uma página não puder ser lida, a diferença fica pendente, não aprovada.