Energia

Usina solar de US$110 milhões quer se instalar dentro de Escondida, a 3.200 metros de altitude

O projeto Helia prevê 75 MW de geração fotovoltaica e armazenamento em baterias. A iniciativa entrou em avaliação ambiental e busca reforçar o fornecimento de energia à operação mineradora em Antofagasta.

Usina solar de US$110 milhões quer se instalar dentro de Escondida, a 3.200 metros de altitude

Um investimento projetado de US$110 milhões pretende incorporar geração solar e armazenamento de energia diretamente às instalações da Minera Escondida, na Região de Antofagasta. A iniciativa, denominada Parque Fotovoltaico e Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) Helia, foi apresentada ao Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental (SEIA) em 27 de outubro de 2026 pela Parque Artemis I SpA, empresa ligada ao desenvolvimento energético promovido pela companhia chinesa Sungrow.

O projeto prevê uma usina fotovoltaica com 75 megawatts (MW) de potência nominal em corrente alternada, acompanhada por um sistema de baterias de íons de lítio de 75 MW. O objetivo é produzir eletricidade renovável próximo aos centros de consumo de Escondida e contar com capacidade de armazenamento para usar parte dessa energia fora dos horários de maior incidência solar.

A proposta está na etapa de admissibilidade ambiental e, portanto, ainda não tem uma Resolução de Qualificação Ambiental (RCA) favorável nem autorização para iniciar a construção.

Um parque solar no meio do deserto, conectado diretamente à mina

Uma das características do projeto Helia é sua localização. A infraestrutura seria instalada a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Antofagasta, dentro da área industrial da Minera Escondida, a aproximadamente 3.200 metros acima do nível do mar.

Essa localização permitiria aproveitar a radiação solar do deserto do Atacama e a proximidade das instalações elétricas existentes, sem depender exclusivamente de uma usina renovável distante da operação.

O projeto prevê painéis fotovoltaicos instalados em estruturas com rastreamento solar, conhecidas como trackers. Esses mecanismos ajustam a orientação dos módulos ao longo do dia para captar melhor a radiação disponível e aumentar o aproveitamento do recurso energético.

A infraestrutura ocuparia uma área de aproximadamente 120 hectares, incluindo as instalações solares e as obras complementares.

Para integrar a eletricidade ao sistema de abastecimento da mina, o projeto prevê duas linhas de média tensão de 23 quilovolts, com extensão estimada de 3,3 quilômetros, que permitiriam conectar a usina à subestação Laguna Seca.

Essa configuração busca integrar a geração ao ambiente industrial onde a energia é consumida, uma alternativa que pode reduzir a necessidade de transportar parte da eletricidade de instalações distantes.

As baterias permitirão usar energia solar quando não houver sol

O armazenamento é o segundo componente do projeto.

Enquanto os painéis fotovoltaicos produzem eletricidade durante as horas de incidência solar, o sistema BESS foi projetado para armazenar energia e fornecê-la posteriormente, quando a geração solar diminuir ou as necessidades de consumo da operação mudarem.

A potência anunciada para as baterias é de 75 MW, equivalente à capacidade máxima de fornecimento de eletricidade prevista para o sistema. Esse número, porém, não indica por si só por quantas horas a descarga pode ser mantida.

Para determinar essa autonomia, é preciso conhecer a capacidade energética, expressa em megawatts-hora (MWh), dado que não deve ser confundido com a potência instalada.

A integração das duas tecnologias pode dar mais flexibilidade ao fornecimento de energia de Escondida, especialmente em uma atividade que precisa de eletricidade 24 horas por dia para alimentar equipamentos, sistemas de processamento e infraestrutura industrial.

O projeto também prevê sistemas de refrigeração líquida para os equipamentos de armazenamento, monitoramento contínuo e mecanismos de detecção e combate a incêndios.

Essas soluções integram as medidas de segurança previstas para as baterias, cuja operação exige controle das condições térmicas e resposta rápida a eventuais falhas.

A relação com o acordo de energia entre BHP e Sungrow

A apresentação ambiental do projeto Helia ocorre após a BHP anunciar, em junho de 2026, acordos de longo prazo com a Sungrow para desenvolver geração solar e armazenamento em suas operações chilenas de Escondida e Spence.

O programa anunciado inicialmente para Escondida previa 110 MW de capacidade solar e um sistema de baterias com potência de 110 MW e capacidade energética de 540 MWh.

Para Spence, o planejamento divulgado previa outros 85 MW de geração fotovoltaica e armazenamento de 85 MW e 420 MWh.

Em conjunto, essas iniciativas somavam 195 MW de geração solar e 960 MWh de armazenamento, com início de operação previsto a partir do ano fiscal de 2029 da BHP.

Há, no entanto, uma diferença entre as capacidades anunciadas inicialmente para Escondida e as que aparecem agora na apresentação ambiental do projeto Helia.

Enquanto o acordo de junho mencionava 110 MW de energia solar para a operação, o projeto Helia prevê 75 MW. Com as informações disponíveis, não é possível determinar se essa capacidade corresponde a uma parte do programa original, a uma revisão do projeto ou a uma configuração que inclui outros empreendimentos adicionais.

A distinção é importante porque as capacidades informadas em acordos comerciais não necessariamente coincidem com o escopo de cada projeto submetido individualmente à avaliação ambiental.

Construção prevista para 2028 e novos postos de trabalho

O cronograma do projeto prevê o início da execução em julho de 2028, condicionado ao andamento do processo de avaliação ambiental e ao cumprimento das demais exigências necessárias para viabilizar o investimento.

A infraestrutura teria vida útil estimada em 21 anos, com um horizonte de operação que se estenderia até 2049.

Durante a construção, está prevista uma força de trabalho de 114 a 169 pessoas, dependendo da etapa de execução. Quando as instalações entrarem em operação, a necessidade permanente de pessoal cairá para aproximadamente oito ou nove pessoas.

A iniciativa também inclui obras de conexão elétrica, vias de acesso, instalações auxiliares e sistemas destinados a controlar os riscos operacionais.

Do ponto de vista ambiental, o projeto inclui estudos sobre fauna, vegetação, patrimônio arqueológico e paleontológico, emissões, ruído e condições territoriais.

A empresa responsável afirma que a iniciativa não provocaria os impactos significativos que exigem a apresentação de um Estudo de Impacto Ambiental. Esse argumento será analisado durante a avaliação da Declaração de Impacto Ambiental.

Também estão previstos compromissos voluntários relacionados ao monitoramento da fauna, à adoção de medidas preventivas para aves, à proteção do patrimônio paleontológico e à ampliação das oportunidades de trabalho locais.

Por que a Escondida quer gerar energia em suas próprias instalações

A estratégia energética da BHP no Chile tem um antecedente importante: Escondida e Spence passaram a contar, no ano fiscal de 2022, com fornecimento de eletricidade totalmente respaldado por contratos de energia renovável.

Portanto, a construção de novas instalações solares não significa que as duas operações estejam começando a usar eletricidade renovável só agora.

A mudança que se pretende implementar é outra: aproximar a geração e o armazenamento do local onde a energia é consumida, complementando os contratos de fornecimento existentes e ampliando a capacidade de resposta às necessidades das operações.

Esse modelo ganha relevância em grandes instalações de mineração, onde a continuidade do fornecimento é fundamental para manter os processos produtivos.

Os novos sistemas também podem contribuir para reduzir a dependência da energia transportada de outras partes do Sistema Elétrico Nacional. No entanto, o benefício efetivo dependerá da configuração final, das condições de operação e da integração com o fornecimento existente.

A nova usina, por si só, também não significa que a mina se tornará independente da rede elétrica, já que isso exigiria avaliar a demanda total, a geração solar disponível e a autonomia do armazenamento.

A autorização ambiental será decisiva para viabilizar o investimento

A entrada da Helia no SEIA representa um avanço administrativo concreto para o projeto, mas não equivale a uma aprovação ambiental nem confirma que os US$110 milhões já tenham sido desembolsados.

As próximas etapas deverão determinar se a documentação apresentada atende aos requisitos de admissibilidade e, posteriormente, se as obras propostas estão de acordo com a legislação ambiental aplicável.

Durante esse processo, poderão ser solicitados esclarecimentos, informações complementares ou alterações no projeto inicial.

Antes da implantação das instalações, também será necessário definir as condições de execução e conexão elétrica.

Se obtiver as autorizações necessárias, a Helia acrescentará capacidade fotovoltaica e de armazenamento diretamente a uma das maiores operações de cobre do mundo, reforçando a tendência da mineração chilena de adotar soluções energéticas instaladas junto a seus principais centros de consumo.

Por ora, o projeto segue em avaliação, e sua construção continua condicionada às aprovações e decisões pendentes.