
A empresa australiana desenvolveu um processo de refino sem fluoretos que permite reduzir as impurezas do manganês. O avanço foi obtido na China e será submetido a novos testes para avaliar sua aplicação industrial na Austrália.
A empresa australiana Firebird Metals anunciou em 19 de outubro de 2026 que conseguiu produzir sulfato de manganês com pureza de 99,999%, usando uma tecnologia de extração e remoção de impurezas desenvolvida em sua planta-piloto em Hunan, na China. O resultado representa um avanço em seu programa de materiais para baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, mas ainda será necessário comprovar a capacidade do processo de operar continuamente em maior escala.
A tecnologia permite processar materiais com diferentes concentrações de manganês, incluindo minérios de baixo teor, resíduos industriais e águas que contêm esse elemento. Sua principal característica é dispensar reagentes com flúor, geralmente associados a determinadas operações de purificação.
A Firebird pretende usar esse desenvolvimento como parte de uma cadeia produtiva integrada, capaz de transformar concentrados minerais em compostos químicos e materiais ativos destinados aos cátodos de baterias.
Nova tecnologia remove impurezas sem usar fluoretos
O resultado foi obtido por meio de um agente extrator desenvolvido especificamente para o manganês, combinado a um sistema de remoção de impurezas integrado ao processo de refino.
Esse mecanismo permite separar elementos indesejados durante o tratamento do material, antes da obtenção do sulfato de manganês de alta pureza.
Uma das características do processo é a eliminação de reagentes que contêm flúor. Isso evita a necessidade de instalar determinados equipamentos especializados resistentes a esses compostos e reduz a geração de resíduos associados ao seu uso.
No entanto, a ausência de fluoretos não significa que o processo não tenha impactos ambientais. Seu desempenho final também dependerá do consumo de energia, dos demais reagentes utilizados e da gestão dos resíduos gerados.
A empresa afirma que sua tecnologia pode processar diferentes fontes de manganês, sem depender exclusivamente de minérios de alta concentração.
Essa flexibilidade pode permitir o aproveitamento de recursos mais difíceis de refinar, embora ainda seja necessário determinar os custos e os índices de recuperação para cada tipo de material.
O sistema também foi projetado para permitir operações contínuas e automatizadas, condição necessária para avaliar seu possível uso em instalações industriais.
O que significa atingir pureza de 99,999%
O sulfato de manganês obtido pela Firebird alcançou pureza declarada de 99,999%, equivalente à classificação de cinco noves ou 5N, usada na indústria para identificar materiais com níveis extremamente baixos de impurezas.
Em termos de concentração, essa especificação equivale a um máximo teórico de aproximadamente 10 partes por milhão de componentes diferentes do produto principal.
Os resultados apresentados pela empresa mostram concentrações reduzidas de diversos elementos que podem afetar a qualidade dos materiais usados em baterias.
Entre os principais dados técnicos estão:
- Ferro: concentração igual ou inferior a uma parte por milhão nas medições da Firebird, ante o limite de 10 partes por milhão estabelecido para a categoria superior da norma industrial chinesa usada como referência.
- Cobre, zinco, chumbo e outros metais: resultados iguais ou inferiores a uma parte por milhão nos testes internos.
- Cálcio: concentração igual ou inferior a cinco partes por milhão, ante o máximo de 50 na categoria superior de referência.
A empresa também apresentou resultados de análises feitas por terceiros para diferentes impurezas. No entanto, o valor específico de 99,999% corresponde a um cálculo de pureza por subtração das impurezas informado pela Firebird e não deve ser confundido com uma validação externa completa de todos os resultados desta nova campanha.
O avanço se soma aos testes divulgados em julho de 2026, quando ensaios independentes realizados por um potencial cliente internacional confirmaram amostras de sulfato de manganês com pureza superior a 99,99%.
A nova campanha busca atingir especificações ainda mais rigorosas.
Austrália prepara planta para demonstrar processo industrial
O próximo desafio da Firebird é levar os avanços obtidos na China para seu projeto Australian Demonstration Plant, uma instalação de demonstração em Osborne Park, na cidade de Perth.
A planta foi concebida para processar concentrados de manganês e produzir sulfato de alta pureza, além de materiais precursores e componentes ativos para cátodos.
O projeto conta com uma subvenção de 2 milhões de dólares australianos da Australian Renewable Energy Agency (ARENA), no âmbito do programa Battery Breakthrough Initiative.
O apoio busca fortalecer a capacidade australiana de transformar minerais em materiais utilizados pela indústria de baterias.
A experiência obtida em Hunan será usada para adaptar os procedimentos às condições operacionais, de segurança e ambientais da Austrália.
Como parte dessa preparação, a Firebird iniciou uma nova campanha técnica usando minério de seu projeto Oakover, localizado na Austrália Ocidental.
O material passou por britagem, moagem, classificação e secagem antes do envio de uma amostra representativa para a China.
O programa é conduzido por Chris Passmore, responsável técnico pela planta australiana, que trabalha com a equipe de engenharia da Firebird em Hunan.
A companhia pretende repetir essa campanha nas primeiras atividades experimentais de sua instalação em Perth.
A partida e a validação da planta australiana são objetivos centrais para 2027. Antes de considerar uma produção comercial, será necessário comprovar a estabilidade do processo, repetir os níveis de pureza e obter amostras aprovadas por potenciais clientes.
Por que o sulfato de manganês é importante para as baterias
O manganês é usado em diferentes tecnologias de baterias de íons de lítio, especialmente em formulações que buscam combinar custos competitivos, capacidade de armazenamento e estabilidade de funcionamento.
O sulfato de manganês de alta pureza é uma matéria-prima química usada na fabricação de materiais que posteriormente compõem os cátodos, um dos componentes fundamentais de uma bateria.
Entre as tecnologias que a Firebird busca atender estão as baterias de lítio, manganês, ferro e fosfato, conhecidas como LMFP, e as formulações ricas em manganês, identificadas como LMR.
A primeira família deriva das baterias de lítio-ferrofosfato e incorpora manganês para modificar suas características eletroquímicas. A segunda reúne formulações em desenvolvimento que buscam ampliar o aproveitamento do manganês nos materiais catódicos.
O sulfato de manganês também é usado em cadeias de suprimento de baterias que utilizam níquel, cobalto e manganês.
Para essas indústrias, é fundamental controlar as impurezas. Certos metais presentes em concentrações excessivas podem interferir nos processos de fabricação e afetar as propriedades dos materiais finais.
No entanto, obter sulfato de manganês de alta pureza não comprova, por si só, um melhor desempenho da bateria. Isso precisa ser verificado posteriormente, com a fabricação e a avaliação dos materiais catódicos e das células correspondentes.
Recursos minerais e perspectivas comerciais
A Firebird dispõe de uma base estimada de recursos minerais de aproximadamente 234 milhões de toneladas de material com manganês na Austrália Ocidental, concentrada principalmente nos projetos Oakover e Hill 616.
Oakover concentra cerca de 176,7 milhões de toneladas de recursos minerais, com teor médio de 9,9% de manganês.
Esses números correspondem a estimativas de recursos geológicos, não à produção efetiva da mina nem a volumes disponíveis comercialmente.
A companhia busca combinar o acesso a esses recursos com sua capacidade tecnológica para desenvolver produtos químicos de maior valor agregado.
Em termos comerciais, a Firebird estima que o sulfato de manganês com pureza 5N pode alcançar preços cerca de 33% superiores aos de materiais convencionais de grau para baterias, devido à sua disponibilidade limitada.
Esse diferencial corresponde a uma referência de mercado apresentada pela empresa, não a receitas de vendas concretizadas do novo produto.
A viabilidade econômica dependerá de outros fatores, como custos de processamento, consumo de reagentes, investimento em instalações e demanda efetiva de compradores industriais.
O que falta avaliar antes da produção comercial
A próxima etapa consiste em concluir os testes com minério australiano, submeter as novas amostras a testes independentes e levar a experiência para a instalação de demonstração de Perth.
A companhia também deverá determinar se o processo mantém sua eficiência ao operar com volumes maiores e por períodos prolongados.
Entre os aspectos ainda pendentes estão a recuperação efetiva de manganês, os custos operacionais, a estabilidade da pureza obtida e a capacidade de integrar o refino às etapas posteriores de fabricação de materiais para cátodos.
A Firebird planeja avançar durante 2027 na definição de uma estratégia de comercialização dessa tecnologia.
O resultado obtido em Hunan demonstra que a empresa consegue produzir sulfato de manganês de pureza extremamente elevada em condições de teste. A próxima avaliação será determinar se essa capacidade pode ser reproduzida de forma consistente e economicamente viável em escala industrial.
Se essas etapas forem superadas, o desenvolvimento poderá contribuir para ampliar as alternativas de processamento de manganês para a indústria de baterias, especialmente na Austrália, onde há interesse em transformar recursos minerais locais em produtos de maior elaboração tecnológica.






