
O Ibovespa despencou quase 16% nesta segunda-feira, levando à suspensão das negociações na Bolsa. A reação do mercado financeiro ocorre em meio a novas regras e preocupações com o desenvolvimento de projetos de mineração bilionários.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil provocou nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, uma forte reação negativa nos mercados financeiros, com uma queda acentuada da Bolsa de São Paulo, forte desvalorização do real e dúvidas crescentes sobre as condições econômicas para a realização de novos investimentos. O resultado eleitoral também abre um período de incerteza para a indústria de mineração brasileira, que prevê investimentos de US$76.900 milhões até 2030, em meio a mudanças regulatórias, longos processos de licenciamento e novas exigências para minerais estratégicos.
O presidente obteve 51,79% dos votos válidos no segundo turno, realizado no domingo, 25 de outubro, superando o senador Flávio Bolsonaro, que alcançou 48,21%, de acordo com os resultados do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil.
A vitória de Lula surpreendeu parte do mercado financeiro, que nas semanas anteriores apostava em uma mudança de governo e em uma política de maior disciplina fiscal.
Bolsa brasileira despenca e leva à suspensão das negociações
A reação dos investidores foi imediata. Na abertura do pregão desta segunda-feira, o principal índice da Bolsa de São Paulo, o Ibovespa, registrou queda de 10%, levando à ativação do mecanismo de emergência conhecido como circuit breaker.
A medida suspendeu por 30 minutos as negociações de ações e outros instrumentos financeiros para conter a volatilidade extrema.
As vendas, porém, continuaram após a retomada das negociações. Por volta das 11h, no horário de Brasília, o Ibovespa recuava 15,9%, aos 172.479 pontos, depois de registrar mínima intradiária próxima de 169.516 pontos.
O mercado de câmbio também sofreu fortes oscilações. O dólar chegou a ser negociado perto de 5,60 reais, com valorização superior a 12% frente à moeda brasileira.
A intensidade da reação refletiu o ajuste das posições financeiras montadas com base na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro. Os investidores também demonstraram preocupação com a trajetória da dívida pública, os gastos fiscais e as futuras decisões econômicas do governo.
A turbulência levou ainda o Tesouro brasileiro a cancelar leilões de títulos da dívida pública previstos para 27 e 29 de outubro.
Embora essas variações correspondam às negociações realizadas ao longo do pregão e não necessariamente aos valores de fechamento, elas sinalizam o aumento da incerteza financeira após a eleição.
Por que uma crise financeira pode afetar os investimentos em mineração
Os possíveis impactos para a mineração vão além da Bolsa de Valores.
O Brasil é um dos principais produtores e exportadores mundiais de minério de ferro e possui importantes recursos de cobre, níquel, lítio, nióbio, grafite e terras raras.
O desenvolvimento dessas jazidas exige grandes investimentos iniciais, infraestrutura energética, sistemas de transporte, usinas de processamento e financiamento de longo prazo.
Quando aumenta a percepção de risco econômico, os investidores podem exigir taxas de retorno mais altas para financiar projetos. Isso encarece o capital e pode alterar a avaliação de iniciativas que ainda não receberam uma decisão definitiva de construção.
A desvalorização do real tem efeitos distintos. Por um lado, pode elevar os custos de máquinas importadas, equipamentos industriais e obrigações denominadas em dólares. Por outro, pode favorecer a receita em moeda local de empresas exportadoras que vendem minerais no mercado internacional.
Portanto, a queda da Bolsa não demonstra que a mineração brasileira tenha entrado em crise, mas introduz um fator de incerteza nas decisões de investimento que deverão ser tomadas durante o próximo mandato presidencial.
Lula terá mais poderes para intervir nos minerais estratégicos
Uma das principais preocupações regulatórias está relacionada à nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, instituída pela Lei 15.506, promulgada em 16 de setembro de 2026.
A legislação criou um conselho nacional vinculado à Presidência, responsável por participar do planejamento e da coordenação do desenvolvimento desses recursos.
Entre as disposições está um mecanismo de revisão pelo Estado de determinadas mudanças de controle societário, participações estrangeiras relevantes, transferências de direitos minerários e acordos internacionais relacionados a minerais estratégicos.
Essas disposições estabelecem novas condições que deverão ser consideradas pelas empresas interessadas em desenvolver ou adquirir ativos minerais no Brasil.
Para os investidores internacionais, um dos principais fatores será entender como esses poderes serão exercidos e quais critérios as autoridades usarão para avaliar as operações.
A regulamentação também estabelece obrigações de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de contribuições para um fundo de garantias da atividade de mineração.
Ao mesmo tempo, a legislação prevê benefícios tributários, mecanismos de financiamento e apoio a projetos prioritários. O objetivo declarado é ampliar o processamento industrial de minerais no Brasil.
Licenciamento mineral continua sendo um dos grandes problemas do Brasil
Além da incerteza política, o setor enfrenta dificuldades estruturais relacionadas aos prazos de licenciamento.
O Ministério de Minas e Energia identificou, em 2026, um prazo médio de 1.563 dias para determinadas análises de autorizações minerárias, o equivalente a aproximadamente quatro anos e três meses.
O Plano Nacional de Mineração 2050 estabelece como meta reduzir essa média para 780 dias.
Prazos prolongados de avaliação podem atrasar campanhas de exploração, decisões de financiamento e cronogramas de construção.
A isso se somam as exigências ambientais aplicáveis a operações de grande porte, especialmente as localizadas próximas a ecossistemas sensíveis ou a territórios habitados por comunidades indígenas.
Ainda assim, o Brasil também promoveu mudanças para estabelecer prazos de avaliação e acelerar determinados projetos considerados estratégicos.
A efetividade dessas medidas ainda depende de sua aplicação administrativa e de disputas judiciais relacionadas ao novo marco de licenciamento ambiental.
Novos impostos preocupam empresas de mineração
Outro ponto de tensão está relacionado ao imposto seletivo previsto na reforma tributária brasileira.
Em julho de 2026, o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) alertou que a eventual aplicação do tributo ao minério de ferro, com alíquota máxima prevista de 0,25%, poderia reduzir a competitividade das exportações.
A entidade defende a aplicação de alíquota zero para evitar custos tributários adicionais sobre um dos principais produtos de exportação do país.
A importância econômica do minério de ferro é expressiva. No primeiro semestre de 2026, ele respondeu por 53,6% do valor das exportações minerais brasileiras.
No mesmo período, o setor registrou superávit comercial de US$20.300 milhões, equivalente a 48% do saldo positivo da balança comercial nacional.
O possível impacto do imposto dependerá de sua regulamentação definitiva e das condições do mercado internacional.
Brasil mantém carteira de investimentos em mineração de quase US$77.000 milhões
Apesar das dificuldades, os dados do setor mostram que o Brasil mantém importantes perspectivas de expansão.
O IBRAM projeta investimentos em mineração de US$76.900 milhões entre 2026 e 2030, valor 12,5% superior às estimativas para o período anterior.
Desse total, aproximadamente US$21.300 milhões estão associados ao desenvolvimento de minerais críticos e estratégicos.
A carteira inclui iniciativas relacionadas a cobre, níquel, lítio, grafite, terras raras e outros recursos essenciais para as cadeias industriais e de energia.
Esses valores correspondem a investimentos previstos e, portanto, não representam recursos já aplicados nem garantem que todos os projetos serão construídos.
A mineração brasileira também mantém oportunidades de expansão ligadas à demanda internacional por minerais críticos, especialmente por parte de fabricantes de veículos elétricos, tecnologias digitais e equipamentos para o setor de energia.
No caso das terras raras, o Brasil possui algumas das maiores reservas identificadas do planeta, embora sua participação na produção mundial ainda seja pequena.
O desafio é transformar esse potencial geológico em operações comercialmente viáveis e desenvolver capacidade industrial para processar os minerais no país.
O desafio do novo governo será recuperar a confiança dos investidores
A reeleição de Lula coloca o Brasil diante de uma combinação de oportunidades geológicas, objetivos industriais e riscos econômicos.
A forte queda da bolsa nesta segunda-feira evidencia a preocupação imediata de parte dos investidores com a continuidade da política econômica e as perspectivas fiscais.
Para a indústria de mineração, o cenário será definido por fatores concretos: acesso a financiamento, estabilidade tributária, segurança jurídica, prazo para obtenção de licenças e aplicação das novas regras para minerais críticos.
Ao mesmo tempo, os incentivos previstos na legislação minerária e os mecanismos para acelerar projetos estratégicos podem favorecer determinados investimentos, especialmente os ligados ao processamento local.
A principal questão é se o Brasil conseguirá transformar seu enorme potencial mineral em novas operações industriais sem que o custo de capital, as exigências regulatórias e os atrasos administrativos reduzam a competitividade dos projetos.
A reação dos mercados financeiros após as eleições é um primeiro sinal de tensão, mas os efeitos concretos sobre a atividade de mineração dependerão das decisões econômicas e regulatórias que o governo tomar durante o próximo mandato.








