
O Chile enfrenta um descompasso entre o avanço das energias renováveis e o uso da eletricidade em sua economia. Embora cerca de dois terços da geração elétrica do Sistema Elétrico Nacional tenham vindo de fontes renováveis em 2025, a eletricidade representou 22,3% do consumo final de energia do país em 2024.
A diferença foi um dos temas discutidos em 23 de outubro, no seminário internacional «Eletrificação para a transição energética: novas demandas, novos sistemas», realizado na sede Vitacura da Universidade Adolfo Ibáñez (UAI).
O encontro reuniu mais de cem pessoas e foi organizado pelo Centro de Pesquisa em Energia Solar SERC Chile, pelo Centro de Transição Energética CENTRA da UAI e pelo consórcio de universidades canadenses CALDO. A abertura contou com a participação da ministra de Energia, Ximena Rincón; da embaixadora do Canadá no Chile, Karolina Guay; do reitor da UAI, Francisco Covarrubias; e do decano de Engenharia e Ciências da universidade, Claudio Seebach.
A diferença entre geração e consumo
O dado sobre geração renovável corresponde à eletricidade produzida no sistema elétrico. Já o percentual de eletrificação considera o conjunto da energia utilizada no país, incluindo os combustíveis usados em veículos, no aquecimento e nos processos produtivos.
O percentual de 22,3% em 2024 consta do relatório Estado da eletrificação no Chile 2026, elaborado pela ONG Uno Punto Cinco com dados da Comissão Nacional de Energia e do Balanço Nacional de Energia. O estudo mostra que a participação da eletricidade no consumo final cresceu 1,9 ponto percentual entre 2010 e 2024.
Durante o seminário, Rincón afirmou que o avanço da geração renovável precisa se refletir na forma como a energia é utilizada. «Agora precisamos ser capazes de levar isso ao consumo, à demanda», disse.
A ministra apontou três tarefas para essa etapa: integrar mais geração por meio de redes e linhas de transmissão, ampliar o armazenamento e avançar na eletrificação de atividades como transporte, indústria e mineração.
A substituição de combustíveis importados por eletricidade permitiria reduzir parte da exposição do país às oscilações dos mercados internacionais. O efeito dependerá das tecnologias adotadas e da forma como a nova demanda será atendida.
Transporte, indústria e mineração
As diferenças entre os setores dão a dimensão do desafio. Segundo o relatório da Uno Punto Cinco, em 2024 a eletricidade respondeu por 46,3% do consumo de energia da mineração e por 27% do consumo da indústria. No transporte, sua participação chegou a 1,1%.
Na mineração, a eletricidade já é usada em diversos processos, mas o transporte de materiais e parte dos equipamentos ainda dependem do diesel. Na indústria, um dos temas analisados durante o encontro foi a geração de calor para processos como secagem e aquecimento de materiais.
O diretor do SERC Chile, José Miguel Cardemil, abordou o consumo de energia térmica e o uso de lenha para o aquecimento residencial. Esses dois campos mostram que a transição energética precisa atender a diferentes necessidades: de equipamentos industriais a sistemas usados nas residências.
A eletrificação também exige levar em conta o custo dos equipamentos e do fornecimento de energia. No primeiro painel, dedicado às políticas públicas, participantes apontaram que o preço da eletricidade e a qualidade do serviço influenciarão a decisão de empresas e famílias de substituir tecnologias movidas a combustíveis.
A diretora-executiva da Associação Chilena de Energias Renováveis e Armazenamento (ACERA), Ana Lía Rojas, propôs elevar para 35% a participação da eletricidade no consumo de energia até 2035 e revisar os sinais de preço recebidos pelos consumidores. A proposta foi apresentada durante o debate.
Redes e armazenamento para aproveitar a geração
O crescimento da energia solar e eólica também revelou limitações para aproveitar toda a geração disponível. Em 2025, o corte de energia renovável no Chile foi da ordem de 6.000 gigawatts-hora, segundo dados do Coordenador Elétrico Nacional.
O corte ocorre quando a produção que as usinas poderiam fornecer é restringida. Entre os fatores que podem provocá-lo estão os limites das redes e o descompasso entre a geração disponível e o consumo em determinados horários.
O armazenamento em baterias permite guardar parte da eletricidade produzida em um momento e fornecê-la depois, quando necessário. Outra opção é ajustar determinados consumos aos horários de maior disponibilidade de energia, embora isso exija condições técnicas e sinais econômicos adequados.
O pesquisador do CENTRA Rodrigo Moreno afirmou durante o seminário que as redes precisam ser planejadas com antecedência para atender aos novos consumos. O tema também foi abordado por representantes do setor elétrico, que destacaram a necessidade de adaptar a distribuição a tecnologias como veículos elétricos e bombas de calor.
Nesse contexto, a ministra Rincón afirmou que a expectativa é apresentar uma proposta conceitual para a reforma das redes elétricas entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027. A iniciativa está em preparação e trata de um marco regulatório que, segundo a ministra, precisa ser atualizado diante das novas exigências do sistema.






